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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Já dizia minha avó...

Imagem retirada de cac-php.unioeste.br
Ouvia aquela voz baixinha saindo da senhorinha frágil. Olhei para o papel onde estava escrito 167x100mmHg e voltei o olhar para ela. Não queria acreditar no que ouvia...

- E Dona Fulana, a senhora cai muito?
- Caiu sim, minha filha. Um dia desses cai de uma escada ali, na minha casa, ai senti um gosto de sangue na minha boca e muita dor. Peguei e coloquei uma xícara de água e coloquei sal dentro e tomei, porque eu lembrei que era bom pra sangramento, essas coisas.

O conhecimento popular nem sempre é o inimigo da saúde, aprendemos muito com os "fazeres populares". Aprendemos que alguns alimentos podem mesmo ser "reimosos" (ainda que não se consiga comprovação científica) e aprendemos que maracujá é um bom suco para quem anda com a pressão alta, apesar de não substituir a redução da ingesta sódica e a tomada da medicação. Mas muitas coisas são feitas que chegam a preocupar-nos.
Lembro-me das inúmeras vezes que discutia com a minha mãe sobre "um ótimo remédio para vomitar": coloca-se cinza quente do borralho do fogareiro em um copo com água fria e toma tudo. Também, quem não vomitaria!?
Meu pai, então, é o primeiro a correr para a cozinha quando os primeiros sintomas de dor-de-garganta aparecem: segundo ele, nada melhor para curar do que uma boa colher de margarina esquentada na boca do fogão ("Bom mesmo é com manteiga-de-garrafa", ele diria!) com meia colher de sopa de sal. Meia colher de sopa de sal!!! Realmente, não sentiria mais a dor-de-garganta porque minha garganta seria corroída e deixaria de existir.
Minha avó mesmo media os "umbigos" dos seu filhos com o galho do peão-roxo e colocava em baixo do pote de água, mas não antes de procurar pela casa um bom botão para colocar no buraquinho da barriga do bebê também para evitar a hérnia. Pois é, e a infecção do coto umbilical?
No dia-a-dia dos profissionais da área da saúde é importante reconhecer alguns "fazeres populares" que podem prejudicar o paciente. LEVAR PARA A REZADEIRA, SIM. E PARA O MÉDICO? TAMBÉM! Assim eu aprendi com meus professores de Assistência Básica à Saúde. Não há nada melhor do que resolver o problema do paciente e, principalmente, ajudá-lo a não adquirir outros problemas. Jamais seremos donos da verdade, e uma crítica que fazemos hoje pode ser a nova opção terapêutica de amanhã. De toda forma, somos obrigados a compartilhar o que conhecemos e incorporar o que de bom nos é oferecido!

sábado, 3 de março de 2012

Diagnóstico difícil

Imagem retirada de grande-distracao.blogspot.com


Cheguei esbaforida da faculdade, cumprimentei-a e perguntei como estava. Ela disse que tudo bem, que tinha feito ontem mesmo o teste ergométrico (teste em que o paciente caminha em uma esteira enquanto são acompanhados alguns de seus parâmetros). O médico tinha dito que estava tudo bem:
- Eu só gostaria de saber o que que é “sugestivo de isquemia do miocárdio” que deu no meu exame.
“Isquemia do miocárdio”? No pensamento, como um grito ensurdecedor, aquelas palavras fechavam o diagnóstico: ela estava infartando no momento do exame! Como dizer que, apesar de o médico ter dito que estava tudo bem, ela estava com algumas porções do coração morrendo? Lembrei do seu filho, primeiramente. EU NÃO PODERIA FAZER AQUILO, AINDA NÃO ESTAVA PREPARADA PARA DAR ESSE DIAGNÓSTICO, E PARA ALGUÉM TÃO PRÓXIMO. Pedi-lhe que fosse pegar o exame e usei esse tempo como refúgio. Em minha cabeça, centenas de sentimentos choviam e lavavam a minha racionalidade. Como dizer?
Entregou-me os papéis com suas mãozinhas delicadas, dizendo que ainda estava com os braços meio doídos do exame. Abri e comecei a lê-lo:
CONCLUSÃO: não apresenta alterações no seguimento S-T    sugestivos de isquemia do miocárdio
- Não, aqui tem “não apresenta alteração”.
- Mas e essa parada antes do sugestivo? Não é outra frase, não? – falou apontando para a distância proporcionalmente grande entre “S-T” e “sugestivos”.
Não conseguiria descrever o alívio e felicidade que me deu em saber que, na verdade, as alterações sugestivas de isquemia NÃO estavam no exame. Agora, contando-lhe isso, percebi o sentido em se reforçar tanto a importância de uma boa escrita: uma vírgula pode mesmo mudar muita coisa!