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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O meu Silêncio

Imagem retirada de mensagens.culturamix.com/

Há quase sete meses eu vinha em um silêncio literário. Nenhuma palavra, nenhum novo relato. Não que eu não tivesse aprendido nada; não que eles, os pacientes, não continuassem a me ensinar mais e mais. Era um silêncio meu, a vida que nos consome. Então tive a pretensão de resumir esses dias silenciosos, mas de antemão sei que não terei como conseguir. Não tenho como falar de cada um deles e de seus ensinamentos assim, de supetão. Mas posso falar do que estive aprendendo esses dias.

...

Há alguns meses estive doente, bem doente. E pude ver como achamos sempre que somos fortes demais até que nos vemos dependentes. Mal pensamos na fragilidade da vida até que vemos que "não é bem assim". Ademais, ESSES DIAS COMO "PACIENTE" ME ENSINARAM COISAS QUE NÃO TINHA LIDO NO ROBBINS, NO PORTO OU NO HANG&DALE. Em nenhum deles me dizia que eu iria chorar por não poder mudar o rumo dos sintomas ou que eu não dormiria por noites seguidas. Mas um paciente me diria isso tranquilamente. Não, não estou desmerecendo as grande referências da Medicina, elas são ainda importantíssimas para nós, eternos acadêmicos. Entretanto, os nossos maiores aprendizados são com aqueles a quem devíamos sempre ouvir, calmamente perguntar o que eles tem a nos relatar...

Aprendi ainda nesses dias de silêncio que tem pré-julgamentos que estão tão entranhados em nossas mentes que sempre precisamos nos policiar para não voltar ao velho julgo. Como naquele dia em que eu estava sentada no banco, duas e meia da madrugada, olhando uma paciente de quinze anos a gritar, e gritar, e gritar pedindo para tirar aquela dor dela, que resolvesse a gestação agora, "Tira isso de mim", ela dizia. O que você pensaria nessa hora? Quantas vezes não foram repetidas as frases "Pra fazer foi bom" naqueles corredores, quantos olhares de julgamento ela não recebeu ao entrar nos ambulatórios, ao pegar a fila preferencial, ao entrar pela frente no ônibus. ELA CHAMOU SUA MÃE, PEGOU SUA MÃO E COLOCOU JUNTO AO SEU ROSTO. "Pede pra eles tirarem logo, mãe". Aquela senhora olhava para mim, olhos marejados e eu, covarde, desviei o olhar para o display do cardiotocógrafo.

Quando o exame terminou, depois de tentar explicar, em vão, para a paciente que tudo corria conforme o esperado, aquela mãe ainda me olhava em desespero. Chamei-a e expliquei ainda outra vez o que já havia dito - exames normais, tudo dentro do esperado. Mas aquelas não eram as palavras que ela queria ouvir, para ela só importava que sua filha não sentisse mais a dor.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Os tão grandes olhos marejados

Imagem retirada de primeirahora.com.br
Já havíamos comentado o caso dela, discutido e rediscutido. Dez alunos e um professor, todos apertados nos jalecos brancos, os pés latejando pelas horas passadas em pé. Doze leitos com pacientes de diferentes idades, a grande maioria desacordada, e máquinas e mais máquinas apitando e piscando para nós. Olhei de lado pois um barulho me distraía. Toc toc toc tac tac, insistia o barulho. Quando virei em direção a ela o barulho aumentou de frequência e percebi que a senhora fazia um esforço grande para chamar a atenção de alguém. LEMBREI DO DIA QUE O DOUTOR TINHA ME DITO QUE O PIOR DE SE ESTAR ENTUBADO E AMARRADO (para não retirar o tubo de respiração da boca) DEVERIA SER AQUELE MOMENTO EM QUE COMEÇA UMA COCEIRINHA TEIMOSA. Coçando, coçando e você não pode coçar. Caminhei rapidamente até a senhora pensando que, se fosse a tal coceirinha teimosa, eu teria que pedir autorização ao médico para tirar as amarras que a impediam de retirar o tubo orotraqueal.
Quando a senhora percebeu que me aproximava dela, abriu para mim uns tão grandes olhos marejados que eles por si só pareciam pedir desesperadamente ajuda.
- Dona Fulana, o que aconteceu? Está precisando de alguma coisa?
Os olhos cada vez mais abertos e ela tentou balbuciar algumas palavras. Não, o tubo não deixaria ela me dizer o que queria e eu fiquei preocupada em ela achar que tinha perdido a voz.
- Dona Fulana, a senhora está com um tubo na boca, está percebendo? - ela fez que sim com a cabeça, ainda me olhando aflita - Ele está ajudando a senhora respirar. Ele também dificulta a senhora a falar, mas quando a senhora ficar melhor e conseguir respirar sem o tubo, voltará a falar, não se preocupe. Agora tente falar devagar o que a senhora quer.
- Á-gua Á-gua Á-gua... - ficou repetindo para mim.
Quando voltei com a água e expliquei que ela não conseguiria tomar, mas que eu molharia uma gaze e colocaria na boca dela, ela fez um sinal afirmativo com a cabeça. Um gole de água na gaze, outro gole de água na gaze. Assim, gole após gole, os seus olhinhos iam mostrando uma expressão mais calma. Disse que tinha que me ausentar por causa da aula, mas que ficaria ali o dia todo, caso precisasse.
Então, ouvindo o caso do outro paciente, sentia ainda pesar em mim os tão grandes olhos daquela idosa, olhos que carregavam uma história e que talvez nem estivesse entendendo ao certo o que eram todas aquelas máquinas piscando e todos aqueles indivíduos de branco, olhos que me seguiram durante toda a explicação do médico...

terça-feira, 19 de março de 2013

Quanto tempo para esperar

Imagem retirada de adrianedto.blogspot.com.br
Passei alguns dias acompanhando a paciente. Exame físico matinal, questionamento sobre a qualidade do sono e se estava comendo o que lhe era oferecido. Todos os dias, um após o outro. Naquele dia, além da rotina, fui acompanhá-la em um exame. Após algum tempo de conversa sobre outras coisas da vida, ela falou que iria se casar antes da sua internação. Imediatamente olhei para a sua mão direita e vi como eu havia sido relapsa: não havia associado a aliança ao fato. Nossa, como era possível?
Começamos então a falar disso e seus planos eram derramados ali naquela sala de espera como um grande rio colorido. Era uma vida a dois que se iniciaria, ora, uma nova - e importante - fase da sua vida interrompida por exames de sangue, exames de imagem, exames médicos, exames...
Ela disse que tudo já estava planejado, data, vestido, local. Pensava em como ficaria vestida de noiva com cara de doente. Teria que adiar seus planos.
Então mais uma vez uma verdade se estampou nos meus olhos. Dia após dia examinamos os pacientes e mal nos tocamos que eles são muito mais que sinais e sintomas. Sim, geralmente não perguntamos sobre suas famílias quando estamos atendendo nas enfermarias, ou se não conseguiram dormir por causa de problemas pessoais, ou se ele está com saudades do seu lençol-de-estimação. Vai saber!!!

***

Certa vez, um outro paciente, quando eu perguntei se estava dormindo bem, disse "Tô não, doutora, aqui é muito quente". E eu, com o suor escorrendo no rosto, ri de mim mesma pela pergunta que depois me pareceu infame. "E quem dormiria bem com um calor daquele?"
Precisamos, então, ver ainda mais o paciente como pessoas além daquela enfermidade, que se casam, sofrem de calor, têm "entojo" com a comida que é servida. Afinal, somos todos humanos cheios de vontades e questionamentos, somos singulares na nossa forma de ser.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Vida sob uma linha

Imagem retirada de hscj.com.br
Todos da sala ficaram alarmados, como de costume, com a entrada daquele paciente em parada cardíaca. Havia, há pouco, comentado com um colega sobre uma postagem do blog (ler aqui) e o fato de que as reanimações cardíacas muitas vezes nos frustrava. Iniciaram-se os procedimentos de praxe e corremos para nos paramentar para a reanimação. O primeiro estudante, ele próprio, iniciou as massagens. "Um minuto", gritava a doutora que estava fazendo a contagem; "Troca", subiu outra colega para reanimá-lo.
Não conseguia parar de pensar no fato de que era um paciente relativamente jovem que estava ali, nas mãos da equipe, que dependia das massagens, das medicações, da eficiência do serviço, da sua própria constituição física e, sim, de sua sorte. Muitos fatores que influenciariam o seu retorno ao "ritmo cardíaco regular, em dois tempos, bulhas normofonéticas, sem sopro", e dentre estes fatores estávamos nós!
Quando me aproximei para massageá-lo, posicionei-me em frente ao seu tórax, mão dominante abaixo da outra mão, braços retos e comecei a contagem. Uma outra colega havia me dito na semana anterior uma maneira de contar o ritmo da massagem, mas desisti na quinta compressão porque aquele ritmo simplesmente não conseguia entrar no meu cérebro. Fui para o tradicional "e 1 e 2 e 3..." e fiquei assim pelos próximos dois minutos. Não sei, mas olhei apenas rapidamente para o rosto daquele senhor. Diferentemente da senhora do outro texto, naquele dia não queria que, além da minha frustração, os pensamentos sobre a sua vida e família me ficassem rondando por tanto tempo. Mas foi inevitável não pensar neles! E UM TURBILHÃO DE IMAGENS COMEÇOU A DANÇAR NA MINHA CABEÇA MAIS UMA VEZ, COMO SE QUISESSEM ME PROVAR QUE NÃO ADIANTA QUERER SEPARAR A RAZÃO DO CORAÇÃO, ELES ANDAM COM NAMORADOS, DIRIA ATÉ COMO RECÉM-NAMORADOS, MÃOS DADAS E BEIJINHOS: NÃO SE DESGRUDAM, NÃO ADIANTA!
Quando a voz da doutora me trouxe de volta à sala, vi que era hora de checar o pulso. Virei-me para o monitor e vi que a "linha de sua vida" estava pulsando. Mas isso não significaria muita coisa se a doutora não houvesse dito, junto a essa observação, que o paciente tinha pulso palpável. Ele tinha pulso!!! Tínhamos reanimado o paciente com sucesso! O meu colega olhou para mim e seus olhos tinham um brilho tão particular de quem diz " Conseguimos". A despeito da nossa vitória particular, os demais pareciam já ter visto isto demais. Nós dois não, ele repetia "Conseguimos", eu queria gritar! Nossa primeira reanimação com sucesso, como não ficar feliz?
Liguei para a minha mãe para avisar, disse ao meu namorado, comentei com os colegas. Claro, não havia feito nada sozinha, mas fiz um pouco pela volta daquele paciente. Ah, fiz sim!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Com que sentimento me olhava?

Imagem retirada de rabiscandopoesiasrj.blogspot.com

Deu um passinho para trás quando nos viu na sala. Éramos quatro estudantes observando-o entrar. Ainda assim, ao comando do médico, ele entrou. E, por fim, disse que precisava dar uma palavrinha em particular com o médico. "Não se preocupe, Fulano, o que o senhor disser aqui é resguardado pelo sigilo médico", tranquilizou-o o doutor. O paciente olhou-nos mais uma vez, titubeou como se nossas "carinhas juvenis" não lhe dessem a segurança necessária para prosseguir, mas ainda assim sentou-se.
Aquela seria a minha primeira entrevista com um paciente soropositivo e ali estava eu, caneta a postos, estetoscópio pesando no pescoço, o jaleco esquentando... Comecei as perguntas conforme o roteiro: nome, idade, profissão. A parte que eu mais temia perguntar, por provavelmente ter pouco jeito com quilo, era sobre a sexualidade. "Pacientes HIV positivos não gostam de falar sobre como provavelmente adquiriu o vírus", pensava eu. Porém, além da minha clara ignorância em estreitar a transmissão apenas para a via sexual (e os acidentes perfuro-cortantes? E as transfusões? E...?), esta parte da entrevista foi tranquila.
Entretanto, com o passar das explanações do médico acerca da nova vida que o paciente deveria ter ("use camisinha, coma frutas e verduras, faça exercícios, venha periodicamente ao meu consultório"), SEUS OLHOS FICAVAM MAREJADOS E ELE PARECIA QUE IA CORRER A QUALQUER MOMENTO DALI. E eu já não mais falava, apenas o olhava.
Depois de todos os atendimentos, saíamos conversando alto, quatro estudantes que continuariam a vida apesar de tudo o que fora dito e discutido. Quando, de relance, vejo o paciente na porta do consultório. Ainda que passasse repetidas vezes as mão embaixo dos olhos, elas não eram rápidas o suficiente para impedir que a profusão de lágrimas rolasse. Eu definitivamente não estava em condições de consolá-lo, não tinha como eu fazer aquilo, sentia-me absolutamente despreparada. Conversei com minha amiga, que por sua vez foi conversar com ele. Quando retornou me disse "É, ele estava mesmo precisando disso!"

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A força dos enfraquecidos


O relato que trago hoje fala do que tenho sentido nesses últimos tempos durante as aulas da faculdade...

De tudo o que consegui ver até hoje na Medicina, uma das coisas que ainda continua a me surpreender é o comportamento dos pacientes. É inevitável pensar em como eu me sentiria estando no lugar deles, não apenas pelas inúmeras situações de constrangimento que por vezes narro aqui, não por conta dos percalços que eles têm que enfrentar para conseguir ser atendidos, mas pela doença em si.
É uma questão de ver a doença como um evento, talvez um meio de aprendizado. Isso eles, os pacientes, têm na maioria das vezes. Algumas vezes me pego questionando o que eles estariam sentindo por estar doentes, mas essa pergunta nunca me foi tão frequente quanto agora, que estou conhecendo a Infectologia e a Oncologia (especialidade que trata de pessoas com câncer). Digo isso pelo conceito prévio que havia formulado de que todo paciente quando sabe que está com câncer chora o tempo todo, por exemplo. Tiro essas expectativas das minhas experiências pessoais, que geralmente não condizem com a realidade.
Deparei pessoas convivendo com a sua doença, e não se lamuriando por tê-la. Não foram todos, é fato, mas todas as vezes em que encontro alguém que continua seguindo em frente, apesar da doença, me lembro do dia em que tive "papeira", que me isolei em um quarto e tive pesadelos horríveis por horas seguidas - achei que fosse morrer! E era apenas "papeira"!
Disso concluo que nós, (futuros) profissionais da saúde precisamos pensar mais sobre o paciente. Pensar se ele está sentindo dor, se ele entendeu o que falamos, se ele sabe qual o próximo passo que deve ser dado para resolver seu problema. Devemos pensar nisso e tentar ajudá-los!
***
Por fim, digo que um dos atos mais bonitos que eu vejo em um consultório é que, finda a consulta, o médico/estudante olha para o paciente e pergunta: "O(A) SENHOR(A) TEM MAIS ALGUMA DÚVIDA?"

sábado, 17 de março de 2012

Quando não se satisfez sua vontade...

Imagem retirada de 4.bp.blogspot.com
A voz alterada no consultório contíguo chamou atenção. Parecia alguém que brigava consigo mesmo, já que a outra voz - a que respondia - estava tão baixa que mal ouvíamos. Nós, curiosos, fomos à sala para ver do que se tratava. Encontramos o homem questionando, transtornado, porque a estudante não escrevia logo um atestado dizendo que ele estava doente por causa do estresse do seu trabalho.
- Mas senhor, eu não posso escrever isso. Isso é só uma hipótese sobre a doença.
- Mas você disse que o estresse POOOODE causar isso, não disse? Então escreva!
E completou
- Como é mesmo o seu nome? – olhou no jaleco – Ah! Fulana de Tal! Olhe, Fulana de Tal, você é tão bonitinha, mas a sua ética é feia!
A estudante olhou para a médica, que acabara de entrar na sala. Contou-lhe a história, interrompida várias vezes pelo homem. A médica ouviu, olhou-o e saiu. O HOMEM CONTINUOU O INQUÉRITO. OLHAVA NOS JALECOS OS NOSSOS NOMES E NOS PERGUNTAVA DIRETAMENTE SE ELE TINHA RAZÃO OU NÃO. Perguntou para os meus colegas e por fim, chegou a minha vez...
- É... Au... Audinne, me diga, você como médica não me daria um atestado dizendo que estou doente? Não é o meu direito como paciente, não?
- Daria sim...
- Tava vendo??? – gritou ele, interrompendo a minha fala.
- Daria um atestado dizendo que o senhor está doente, mas não colocaria que é por causa de estresse, já que não há como provar isso.
Ele me olhou sem dizer nada, afinal esta opção faria apenas a metade do que ele queria: queria um atestado que permitisse que ele se aposentasse alegando doença laboral. Mas não havia como provar isso! A médica retornou, dizendo que ele faria um tratamento lá mesmo, com outro profissional.
Ele ficou na porta, cercando-nos por algum tempo. Parecia decidido a conseguir o atestado. Bem, depois saiu, mas aquilo ficou na minha cabeça: "você é tão bonitinha, mas sua ética é feia". Decerto, um julgo incorreto... muito incorreto!


quinta-feira, 15 de março de 2012

Um caso de amor

Imagem retirada de http://portal.saude.gov.br
"DOI DEMAIS. ESQUECER DOI DEMAIS"
"E não é que doi mesmo?", pensei e imaginei como eu reagiria em uma situação dessas...
***
Um homem feito (como se diz popularmente), quase às lágrimas, contava a sua trajetória para a gente. Dizia do tempo em que passeara por diversos locais e nos fazia inveja com a sua memória de computador.
- E quando foi que o senhor fez isso, Seu Fulano?
- Foi no dia 19 de novembro de 1958 - falava assim, como se falasse do que comeu naquela manhã.
No decorrer da consulta, o seu principal problema estava exposto. A separação de sua mulher o corroia por dentro e, saudável que sempre foi, estava agora triste, com o choro fácil e tomando mais medicações.
Em um dado momento, ele disse sobre a separação:
- A gente ia fazer 60 anos de casados, mas eu considero mais porque eu conhecia ela antes... Falava com ela de manhã, antes de sair pro trabalho; à tarde, quando voltava para almoçar; e quando voltava à noite... EU VIVI QUASE A MINHA VIDA TODA AO LADO DELA. É muito sofrimento.
Nesses instantes, o seu olhar se perdia numa vastidão de cenas que decerto passeavam em sua mente, em uma valsa constante e ensurdecedora. Ele havia se desfeito de muita coisa para esquecê-la. Doou os bichos de estimação e o primeiro presente que comprou para ela. Mudou a rotina. Pediu ajuda do filho. Mas parecia tratar-se de uma doença da qual a Medicina ainda não conseguiu medicar: a saudade. Aquela saudade que doi fininho no coração e não nos deixa agir. Aquela que vem, se instala e dita quais serão as nossas ações, os nossos pensamentos e até os nossos sonhos. A saudades que não nos deixa dormir...
- Como está o sono, Seu Fulano? Tá dormindo direitinho?
- Não, tô não. Eu deito na cama e fico vendo TV. Dai, quando o sono vem eu me ajeito na cama, mas não consigo dormir.
Tudo isso depois que ela saiu de casa. Falou da desilusão, que estava se sentindo abandonado por quem mais queria bem. E, lá pelas tantas, disse uma verdade que nos mostra o quanto o nosso egoísmo nos deixa doentes e que me permitiu entender muito dele, de mim e de tantas outras pessoas...:
 "A contrariedade dá um mal-estar muito grande na gente"
E como o amor doi... como doi!

sábado, 10 de março de 2012

O dia em que errei

Imagem retirada de damien-antimatter.blogspot.com
Os atendimentos seguiam normalmente. Adolescentes e idosos eram atendidos e, por fim, o doutor-professor os via. Eu já havia ouvido falar em transferência e contra-transferência no atendimento médico. É mais ou menos quando o paciente deposita suas experiências de vida no médico e o médico deposita as suas de volta, podendo ser positivas (como quando uma paciente lembra sua vovozinha boazinha) ou negativas (quando ele lembra aquele seu vizinho insuportável). Porém, ainda não  havia acontecido comigo... até aquele dia.
Sentou-se à minha frente. A sua forma de agir não diferia em nada dos demais atendimentos daquela tarde. Apresentou um pacote de folhas, exames novinhos nos foram entregues. "Trouxe para mostrar pro doutor", disse olhando além de onde estávamos, olhando para o Doutor que estava em outra mesa logo atrás da gente, ocupado com outros pacientes. A minha colega perguntou se ele tinha pressão alta e diabetes.
- Foi pra isso que eu fiz o exame, pra saber se tenho 'diabete'.
Analisamos o exame e, de fato, ele tinha diabetes. Perguntei se sua consulta estava agendada no posto de saúde, para o dia seguinte (como havia me confirmado a agente de saúde). Ele disse que não, 'que isso e aquilo'. Em resumo: queria ser visto pelo doutor, e HOJE.
Perguntei ao médico qual seria a prescrição, na outra mesa. Quando voltei com a resposta, o paciente perguntou se o médico não veria o exame. Levei o exame ao médico, que me repetiu o que fazer.
- Ele tinha passado um remédio para mim quando me viu da outra vez - disse o paciente.
- Era um remédio grande, ... Metformina? - perguntei, já que ele não havia trazido a receita.
- Não, é um roxo, pequeno.
- Roxo... roxo... Será que é o Captopril? - pensei alto, enquanto tentava adivinhar de que medicação ele estava falando.
- Captopril é para pressão, menina! - FALOU DE MANEIRA QUE ME PARECEU DUVIDAR DE QUE EU SABIA PARA QUE SE PRESCREVIA AQUELE MEDICAMENTO.
A consulta não foi nada agradável. Difere em muito dos relatos que sempre trago a vocês... MAS EU PRECISAVA CONTAR COMO ERA UM ATENDIMENTO QUE NÃO DEU CERTO. O objetivo foi alcançado - ver os exames e medicar corretamente o paciente - mas os MEUS objetivos não foram! Sai de lá frustrada, como se os demais atendimentos do dia não houvessem sequer ocorrido. Esqueci da menina-triste e da vovozinha-que-voltou-a-estudar. Apenas aquele erro importou ao fim do dia: o dia em que não atendi corretamente, que a empatia não foi alcançada!


domingo, 4 de março de 2012

Em um mundo só seu

Imagem retirada de osconselheiros.com

Demência. Não conhecia a face dessa doença até aquele dia. Ou melhor. Conhecia em grau leve ou em livro, o que nunca é igual a deparar quem sofre. No consultório apertado, seis estudantes esperavam ansiosos seu primeiro atendimento, quando entrou aquela família. Um homem, bem idoso, caminhava com alguma dificuldade, como se houvesse esquecido que, depois de por o pé direito à frente precisava trazer o esquerdo em seguida, para andar. A filha trazia no rosto a aflição de quem passou algumas noites em claro. A esposa trazia no rosto a tristeza.
No desenrolar da consulta, histórias surpreendentes eram narradas por aquelas senhoras. Histórias de alguém que teima para vestir-se, que esquece como engolir a sopa, que não pode mais estar sozinho em casa. Visivelmente alterada, a esposa disse-nos “EU NÃO CONHECIA ESSA DOENÇA, MAS É A PIOR DOENÇA QUE JÁ VI NA VIDA”. Doença de nome estranho, já há muito aprendida por aquelas duas mulheres simplórias: Alzheimer. A esposa olhou-nos com uns olhos muito vivos e marejados:
- Tô com meus olhos que quase não enxergo mais de tanto chorar – disse-nos, entregando-se às lágrimas.
Porém, mais surpreendente ainda foi ver que ele, o paciente, diagnosticado com “o alemão” (como dizem popularmente sobre a Doença de Alzheimer) estava, sim, percebendo algumas de nossas ações, chegando a interagir em alguns breves momentos e julgar em outros.
- Doutor ... vou lhe dizer uma coisa ... o senhor esqueceu ... – balbuciavam aqueles lábios já riscados pelas linhas do tempo - ... o senhor esqueceu a parte de olhar.
Ele realmente estaria reclamando do médico que, mesmo dizendo “pode falar, seu Fulano, estou escutando”, continuava escrevendo, sem olhar para ele? Ademais, o senhorzinho falador continuou:
- A gente tem prazer ... de ver assim, 4 ... 5, 6 doutores ... dando duro num serviço ... desse aqui.
Não sei se me surpreendi mais com a situação dos familiares, já calejados dos dias e noites tentando dar os remédios, colocar para dormir; ou foi com o olhar de filha que reconhece o pai, ainda que por detrás do Alzheimer; ou se foi com aqueles rompantes de clareza, como se se lembrasse da lucidez encoberta pelos dez anos de doença. Não sei.
E, depois, o senhor continuou a nos contar dos cavalos do seu tempo de menino e a pegar pequenos objetos imaginários que teimavam em cair no chão.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Nada de massas!

Imagem retirada de cliquebeleza.net
Sentada na porta de um consultório, fiquei esperando o horário de "trabalhar". Uma porção de carrinhos róseos ou azuis passavam para lá e para cá. Gritinhos e risinhos eram ouvidos a todo momento. Quando me dei conta, vários bebês e suas mães estavam por todos os lados.
É engraçado como cada mãe quer, precisa falar de suas experiências, do que viveu com aquele pequeno ser que deu certo, do que aprendeu com outras pessoas. Ficando ali, ouvi - sem ser convidada - de tudo um pouco. Em dado momento, uma delas estava se vangloriando por sua filha comer muito bem e dormir melhor ainda. Ela disse, então:
- Ah! Aveia ela adora. Quando ela termina, até pedir mais, ela pede.
Olhei para aquela pequenina, rosadinha e fortinha, e lembrei-me das horas e horas na aula de pediatria e das centenas de vezes que ouvi que criança com menos de 6 meses não deve tomar outra coisa que não leite materno e que, após isso, alimentos leves devem ser introduzidos na alimentação. Nada de massas! Lembro ainda das centenas de artigos publicados, respaldando as nossas recomendações. Nada de massas! Então me pergunto como anda a nossa comunicação com as mães, e mais: ATÉ QUE PONTO TEMOS PROPRIEDADE PARA DAR CERTAS RECOMENDAÇÕES? Geralmente, quando converso com as puérperas, elas me olham "de lado", desconfiadas. "Como essa 'criança' quer me dizer o que fazer", devem pensar. E assim seguiram as conversa, uma após outra, "desrespeitando" as nossas ordem, criando bebês fortes e rosados, dando continuidade ao curso da vida.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Rebelde com calça!

Imagem de media.photobucket.com
Adentrou o consultório nos olhando de cima a baixo. Nós, duas estudantes, estávamos encarregadas de ouvir os pacientes e repassar a história para a médica, que concluiria o atendimento. Aquele olhar dizia, ou melhor, gritava um "QUEM SÃO VOCÊS PARA ME EXAMINAR?", mas demos início ao atendimento. A adolescente relatou o que a trouxera ali e nos contou de sua ida frustrada a uma dermatologista. Anotamos os dados e exploramos um pouco mais a história da ida à outra médica, ao que ela disse que seu problema fora negligenciado e que a profissional havia dito que trataria disso em outro momento, depois de tratar das espinhas.
Quando a médica entrou no consultório e repassamos o caso, a adolescente mais uma vez disse do seu desagrado com a outra profissional e que não aguentava mais ficar em fila de espera de posto de saúde, que não tinha paciência para isso. Como estávamos rastreando doença dermatológica, a médica solicitou que ela se despisse para verificar se havia alguma mancha em seu corpo e ela olhou por detrás da franja, com a cabeça baixa e os olhos vivos, bem levantados e falou "O que?!". A médica repetiu a solicitação. Ela:
- Não, todo dia eu me olho no espelho, não tem mancha nenhuma não!
- Mas é necessário que a gente avalie, a menos que você realmente não queira - disse a médica.
- Eu não quero, não precisa - disse a adolescente e "ponto final"!
Eu e minha colega estávamos irrequietas com a situação. Não bastava o seu olhar ao entrar para nós duas, meras estudantes, depois essa recusa e, por fim, ainda disse que não tinha saco para ficar esperando atendimento em fila de posto. Fiquei pensando na história já batida do Pequeno Príncipe, quando é dito que é necessário cativar as pessoas/coisas. Pensei em como seria importante que aquela adolescente sentisse mais segurança em nosso atendimento para que se deixasse examinar e que se desarmasse. Seria essencial cativá-la para que ela pudesse ser efetivamente atendida.
Entendo que não é possível "cativar" a todos, mas é bem possível tentar. QUANDO ELA SAIU, FIQUEI COM UMA SENSAÇÃO DE TAREFA NÃO CUMPRIDA, como se me mandassem catar rosas e eu só achasse papoulas!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Solidão em uma casa cheia

Imagem retirada de flickr.com
Como não perceber algo que me gritava aos olhos? Um por um, do mesmo jeito, as mesmas características: idosos que vinham para a consulta de rotina, trazendo suas receitas já muito gastas e suas angustiantes histórias de vida. Um ou outro nos trazia um sorriso escancarado de quem "tem quem me cuide" ou de quem "ele próprio pode muito bem se cuidar, obrigado(a)!". OS DEMAIS TINHAM SEMPRE AQUELE ASPECTO DE LÁGRIMA POR ESCORRER ENTRE AS RUGAS, o que me afligia por não ter seguido a antiga recomendação de Alfred Benjamin, em "Entrevista de Ajuda", que recomenda que o bom profissional deve sempre trazer lenços para os pacientes.
Destes, uma senhora me chamou atenção. Já havia atendido-a em outra oportunidade, lembrava inclusive de seu problema de saúde e de que era poliqueixosa (como se diz dos pacientes que nos trazem centenas de problemas de saúde). Perguntei sobre o uso dos medicamentos, ao que ela disse que usava bem direitinho. Após algum tempo de conversa, ficou claro que ela usava direitinho quando lembrava. Não tinha ninguém em sua casa que pudesse ajudá-la nisso, além de que ela mesma afirmava esquecer inclusive de comer, chegando a servir seu almoço e simplesmente voltar na cozinha, lá pela hora do lanche, e encontrá-lo intacto como havia deixado. Falou que seu marido era quem estava cozinhando e que não conseguia comer aquelas coisas verdes que ele colocava no prato. Carne? "Ingüiava" só em mencionar...
Contou-nos ainda dos problemas de insônia e de como seu filho chegava bêbado várias noites, importunando seu sono.
Soubemos que a sua rua era muito perigosa e que ela passava a noite quase toda de vigília, esperando pelo pior da janela de casa, com medo, muito medo.
Quem olha pelas milhares de senhoras e senhores que dedicaram suas vidas aos filhos e que estes lhes abandonam (literalmente ou psicologicamente)? Algumas vezes é tão doloroso atender pessoas que você sabe que poderá fazer pouco por elas. UM REMÉDIO NÃO PODE ORGANIZAR A VIDA FAMILIAR E ISSO É UM TAPA NA NOSSA CARA; É UM "VOCÊ SÓ PODE FAZER ISSO?" QUE NOS ENCHE DE UM VAZIO. Tenho consciência de que uma palavra com essas pessoas pode ser muito gratificante para elas, mas não me parece ser suficiente.
A doutora que nos acompanhava conversou com o agente comunitário da rua dela e pediu que ele ajudasse no controle da medicação, passando pelo menos uma vez por semana na casa dela para contar os comprimidos. Nós, estudantes, fizemos uma tabela e juntamos as medicações, para que ela pudesse lembrar de todas. Uma gota no oceano que espero tê-lo tornado um pouco mais cheio!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Homens: todos iguais?

Imagem retirada de noticias.r7.com
Hoje eu fiquei inesperadamente feliz. Feliz porque algo que eu não esperava aconteceu. Todos sabem que homem se cuida menos, vai menos ao médico, pensa menos em seu corpo. Geralmente, digo!
Acompanhando um serviço público, iniciaram-se os atendimentos. E tivemos a oportunidade de atender algumas mulheres... e alguns homens! Preocupados com o coração, com as artérias, com a cabeça. Homens que estavam faltando trabalho, deixando algumas horas de sono de lado, esperando em uma fila enorme de posto! Foi muito bom saber que há uma possibilidade de mudar a tão batida frase de que HOMEM NÃO VAI A MÉDICO!
Um deles me chamou atenção por estar lá para cuidar da pele. Estava com um problema que há algum tempo o constrangia e procurou o atendimento médico. Conversou sobre suas atividades e perguntou como aguentávamos as aulas de anatomia, que ele não conseguiria, "médicos são frios". Eu ri disto. Falar francamente da nossa frieza foi singular em um dia de tantos "mesmos atendimentos". Porém mais singular ainda foi poder perceber que homem não procura médico só porque sente dor, como tenho escutado desde que comecei a estudar Medicina. Aliás, desde que comecei a entender o que é um atendimento médico...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Humanos como Desumanos

Imagem retirada de: voceemminhanovavida.blogspot.com
Nós nunca temos ideia do que a vida nos reserva. Assim era aquela senhora, debilitada, na maca do hospital. Já fora mãe, é verdade, mas perder um filho sempre mexe com a mulher. Nós, alunos, estávamos todos muito interessados em ouvir o que lhe acontecera, que procedimentos seriam feitos com ela e como aquilo tudo iria terminar. Ela contava cada detalhe, falava da sua primeira gravidez e como descobrira esta. Contou das dores e náuseas que sentira e do medo que tinha do seu diagnóstico. Abortamento espontâneo, o que deve passar na cabeça de uma mulher?
Ao manusear a sua pilha de exames, o médico nos contava o que havia nos exames da paciente. Ultrassom, exame de sangue, de hormônios... uma pequena lista que contava parte da história pela qual ela passou, mas nada dizia dos seus sentimentos.
Lá pelas tantas, o médico apontou-nos um laudo e disse "feto morto". Apontou-nos uma imagem do ultrassom e disse "feto morto". Apontou a história anotada por outro médico e disse "feto morto"... e nessa sucessão de palavras, olhei para a paciente e vi aquela mulher segura de sua situação chorar. Eram lágrimas abafadas, talvez pela vergonha de se despir os sentimentos ante quase uma dezena de alunos, mas eram lágrimas fortes o suficiente para lacerar meu coração. Como lidar com situações tão íntimas sem sequer se interessar pelo que se passa com o outro? E a imagem de um feto morto veio à minha mente e NÃO PUDE DEIXAR DE PERCEBER O QUANTO TEMOS LIDADO COM HUMANOS DE FORMA TÃO DESUMANA!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Como não gostar...?

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Timidamente começou a cantar. As palavras saiam dela e ganhavam o silêncio da sala cheia de olhos que a olhavam. Quando eu penso que a medicina não vai mais me surpreender, acontece dessas. Ela cantava um "arco-íris" que lhe tirava daquele mundo e a transportava para um lugar...
"Um dia eu quis subir numa estrela e acordar bem longe numa nuvem"...
 Quando a menina acanhada entrou, não pensava que ela iria cooperar com a consulta. Muito calada, vinha sendo trazida pelos pais. Depois, as história que eu ouvi não condiziam com aquela "criança":  uma moça que sofrera desde criança e que teve uma vida intensa, estudou, brincou, bateu, riu, chorou... O professor disse, de outras consultas, que gostava de quando ela cantava e que conversava com os alunos. Ela nos olhou, hesitou e, por fim, concordou em nos dar essa "palhinha", e esse presente para mim!
Os pais (acredite, nos tempos de hoje, pais irem juntos a uma consulta é muito raro) tinham-lhe um amor inenarrável. Eram prova de que é possível crer em um sentimento verdadeiro e crer na família como unidade.
De repente, olhou para o pai e disse, em bom tom: "Pai, te amo". E para a mãe: "Mãe, te amo". Disse ainda que não sabia porque as pessoas não queriam conversar com ela, já que todos somos irmãos, e aquilo me doeu. Temos tanto preconceito em nossos olhos que ele nos envenena as ações.
Depois ela foi-se, com toda a sua história e toda a sua voz... e eu fiquei com mais esse aprendizado: O AMOR NÃO TEM SANIDADE OU INSANIDADE. ELE APENAS É AMOR!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Olhos de pessoa tímida e irritada

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Ela entrou cheia de tralhas e visivelmente incomodada. Trazia seus filhos e o marido à tiracolo e nos olhava de lado, respondendo secamente ao que era perguntado. Aquela situação incomodou a todos os seis estudantes, mas apenas continuamos o atendimento.

- Fulano nasceu com quantos quilos? E Sicrano?
- O parto foi normal?
- Como você dá banho neles, mãezinha?

Ela respondia a um e outro com uma propriedade de sua situação impressionante. Conhecia todos os detalhes de seus filhos e aparentava um zelo extremista. Lá pelas tantas, ao ser inquerida o porquê de tomar determinada atitude em relação aos filhos ela simplesmente respondeu "Faço assim porque eu quero!".
Quando a professora entrou na sala, A PACIENTE OLHOU-A E DISSE "MAIS GENTE PRA ASSISTIR!?". A professora falou que era necessário, explicou a situação, dizendo tratar-se de um hospital universitário, etc, etc. Continuou conversando com ela ao passo que nos veio a revelação que mudou completamente o ponto de vista sobre as atitudes desta senhora. Tratava-se de uma paciente com possível diagnóstico de AIDS e que temia pela saúde dos seus filhos.
Tudo passou a fazer sentido e nós, como humanos, pecamos por julgar antes de entender. Após o atendimento, quando ficamos apenas professora e alunos, aquela nos disse da primeira impressão negativa e como ela havia se enfurecido pela postura hostil da paciente; e que agora ela reconhecia também seu erro em julgar precipitadamente. É muito mais fácil para todos incomodar-se com a "grosseria" sem no entanto procurar motivos para isso. Essa é mais uma lição que me vai ficar: ESTAMOS CONFORTÁVEIS EM NOSSO MUNDO, MAS AS PESSOAS QUE CHEGAM A NÓS TÊM SUAS VIDAS E SEUS SOFRIMENTOS.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O que procuro

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A senhora entrou no consultório cheia de dores.

- O que trouxe a senhora aqui?
- Doutora, eu tô com dor aqui no ombro, nesse dedo, nessa panturrilha, no punho direito e cotovelo esquerdo. Tenho dor de cabeça, tenho mais isso e mais aquilo...

Colhida a história da paciente e realizado o exame físico por duas internas e eu, ficamos aguardando a doutora para discutir o caso. Um pouco mais de conversa e a paciente começou a contar as coisas que estavam agravando seu estado de saúde, a situação com o marido, a baixa auto-estima... UMA SÉRIE DE OUTROS FATORES QUE PASSAM DESPERCEBIDOS QUANDO FAZEMOS UMA CONSULTA RÁPIDA E SEM VONTADE.
De nada adiantaria prescrever os remédios sem as recomendações que se seguiriam (emagreça, coma comidas saudáveis, faça exercício), e menos ainda se não tivéssemos tido a sorte de nos aprofundar na história da doença, que também é aquilo que se sente. O BELO DE SE TRABALHAR NA ÁREA DA SAÚDE É ENTENDER QUE O SER HUMANO É MAIS DO QUE AQUILO QUE NOS FALA, MAS É TAMBÉM O QUE SENTE, O QUE DEMONSTRA, O QUE ESCONDE! Mais do que dores no corpo, ela precisava desabafar a situação de humilhação que estava passando, sentindo-se feia e não-amada.
Eu não soube o que dizer. A interna, com maestria, deu-lhe as recomendações necessárias e falou um pouco do auto-cuidado e do amor-próprio. Ali, naquele ambiente pouco acolhedor, a paciente pode chorar e receber a atenção que precisava. Ali foi feita a medicina humanizada que eu tenho procurado.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Não vi sequer seus olhos

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Estávamos todos ansiosos para o que iria acontecer: assistiríamos a nossa primeira consulta ginecológica. Quando viemos ao consultório, estávamos em bando - uma porção de alunos de jaleco branco. A paciente, que aguardava do lado de fora do consultório, viu-nos aproximando.
Ficamos discutindo como o professor sobre os procedimentos e percebemos uma movimentação lá fora. A paciente disse não queria mais fazer o exame e que iria embora. Certamente estava em seu direito e ai vem a grande dúvida que nos persegue a faculdade inteira: precisamos dos pacientes para aprender a ser médicos, mas como fazer quando estes se recusam o atendimento quando estamos?
O professor e os funcionário ficaram explicando que era necessário ela fazer o exame, resmungando que a paciente era isso ou aquilo e inquietos para resolver logo a situação. Por fim, ela concordou em fazer o exame.
Entro na sala rapidamente, preparou-se para o procedimento, deitou na maca e encobriu o rosto. Em nenhum momento vi seus olhos ou dirigi-lhe a palavra. EU NÃO SERIA CAPAZ DE DESCREVER COM PALAVRAS O CONSTRANGIMENTO QUE EU SENTIA. Ela parecia escrava a quem se impõe uma ordem e que ela realiza, mas com um ódio dos seus "senhorzinhos". Eu queria sair dali!
Estabelecer uma boa relação com o paciente, explicando os procedimentos e dando-lhe o direito de opinar é algo que transcende o que aprendemos na faculdade. Mas não é impossível de se aprender. O fato é que o paciente, principalmente estando em um local de atendimento público, pode se achar fragilizado, dando margem a alguns deslizes de quem lida com eles. Neste dia não aprendi apenas o que era uma colposcopia ou como estadiar o câncer de colo do útero, mas aprendi coisas que se deve levar para a vida: que aquele constrangimento eu não quero mais presenciar!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Barulhinho de coração

Imagem retirada de: profundopensar.blogspot.com
Algumas vezes, pequenos detalhes nos marcam bastante... uma palavra que você sem querer ouviu, uma lágrima que de repente você viu... Aconteceu hoje, em uma visita ao posto de saúde. Um pequeno momento que marcou meu dia!
A mulher deitou-se na maca para ser examinada. Estava grávida e vinha fazer o pré-natal. Era a primeira vez que eu examinava uma barriga, e dava medo apertá-la e machucar o bebê! Assim, pegando, apertando e medindo a barriga, transcorreu o atendimento. Eu acompanhava uma enfermeira, ela pegou um gel e colocou naquela barrigona na região que ela supunha estar "as costas" da criança. Com um aparelho de amplificação do som, começou a percorrer aquela região e, de repente, um barulhinho acelerado - tututututu -  encheu a sala da consulta. ERA A VIDA DENTRO DAQUELA MULHER, UMA VIDA QUE ESTAVA COMEÇANDO...
Provavelmente ela, a mãe, já havia passado por outras consultas, e tantas vezes ouvira esse coraçãozinho que pulava ali dentro. Mas foi indescritível para mim, que ainda nem sou mãe, poder ouvir aquelas batidinhas compassadas, como um samba acelerado, um ritmo para a vida acadêmica, o movimento para uma vida...