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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Os tão grandes olhos marejados

Imagem retirada de primeirahora.com.br
Já havíamos comentado o caso dela, discutido e rediscutido. Dez alunos e um professor, todos apertados nos jalecos brancos, os pés latejando pelas horas passadas em pé. Doze leitos com pacientes de diferentes idades, a grande maioria desacordada, e máquinas e mais máquinas apitando e piscando para nós. Olhei de lado pois um barulho me distraía. Toc toc toc tac tac, insistia o barulho. Quando virei em direção a ela o barulho aumentou de frequência e percebi que a senhora fazia um esforço grande para chamar a atenção de alguém. LEMBREI DO DIA QUE O DOUTOR TINHA ME DITO QUE O PIOR DE SE ESTAR ENTUBADO E AMARRADO (para não retirar o tubo de respiração da boca) DEVERIA SER AQUELE MOMENTO EM QUE COMEÇA UMA COCEIRINHA TEIMOSA. Coçando, coçando e você não pode coçar. Caminhei rapidamente até a senhora pensando que, se fosse a tal coceirinha teimosa, eu teria que pedir autorização ao médico para tirar as amarras que a impediam de retirar o tubo orotraqueal.
Quando a senhora percebeu que me aproximava dela, abriu para mim uns tão grandes olhos marejados que eles por si só pareciam pedir desesperadamente ajuda.
- Dona Fulana, o que aconteceu? Está precisando de alguma coisa?
Os olhos cada vez mais abertos e ela tentou balbuciar algumas palavras. Não, o tubo não deixaria ela me dizer o que queria e eu fiquei preocupada em ela achar que tinha perdido a voz.
- Dona Fulana, a senhora está com um tubo na boca, está percebendo? - ela fez que sim com a cabeça, ainda me olhando aflita - Ele está ajudando a senhora respirar. Ele também dificulta a senhora a falar, mas quando a senhora ficar melhor e conseguir respirar sem o tubo, voltará a falar, não se preocupe. Agora tente falar devagar o que a senhora quer.
- Á-gua Á-gua Á-gua... - ficou repetindo para mim.
Quando voltei com a água e expliquei que ela não conseguiria tomar, mas que eu molharia uma gaze e colocaria na boca dela, ela fez um sinal afirmativo com a cabeça. Um gole de água na gaze, outro gole de água na gaze. Assim, gole após gole, os seus olhinhos iam mostrando uma expressão mais calma. Disse que tinha que me ausentar por causa da aula, mas que ficaria ali o dia todo, caso precisasse.
Então, ouvindo o caso do outro paciente, sentia ainda pesar em mim os tão grandes olhos daquela idosa, olhos que carregavam uma história e que talvez nem estivesse entendendo ao certo o que eram todas aquelas máquinas piscando e todos aqueles indivíduos de branco, olhos que me seguiram durante toda a explicação do médico...

domingo, 1 de julho de 2012

Não tenho como te responder...

Imagem retirada de aromais.blogspot.com
Ele seguiu o médico calmamente para detrás do biombo, onde seria realizado o exame físico. Os olhos da sua esposa o acompanhavam parecendo querer segurá-lo para que não caísse. O paciente estava bastante debilitado. Havia passado por algumas sessões de quimio e radioterapia e vinha em acompanhamento. Porém, apresentou alterações no PSA (exame para análise de doenças da próstata). Assim que o percebera fora daquele ambiente, virou para nós, meros estudantes, com seus olhos tão cheios de súplica e perguntou:
- Vocês acham que esse exame alterado é alguma coisa? Será que ele está doente de novo?
Como responder a isto? Nesses momentos é que percebemos duas coisas importantes: não sabemos tanto para explicar aos pacientes/parentes e somos, entretanto, peça fundamental em alguns tipos de atendimento. Algumas vezes os acompanhante não têm coragem de perguntar ao médico (ou este não deixa que eles falem). Daí nos sobra a importante tarefa de fornecer informação de qualidade e de, principalmente, confortar os familiares.
Bem, o fato é que os olhos daquela mulher me fizeram pensar que eu não seria tão capaz assim de responder. ELES TINHAM UMA PROFUNDIDADE DE QUEM TEMIA A RESPOSTA, DE QUEM SABIA QUE A VIDA É EFÊMERA E QUE SEU MARIDO PODERIA PROVAR-LHE ISSOOs acompanhantes dos pacientes, muitas vezes, tem uma carga tão pesada quanto a do próprio doente. Eles podem não ter as náuseas frequentes, dores no corpo ou a perda da acuidade visual, mas sofrem por ver quem ama passar por tudo isso. Alguns deles aguentam o choro, a angústia, o silêncio e a agressividade do seu ente, sabendo que podem apenas apoiá-lo.
Àquela mulher foi dito que mais exames deveriam ser realizados para chegar ao diagnóstico, mas aquilo não bastava para ela, que passaria 24 horas ao lado dele, seu marido, sem saber se ele estava doente outra vez. Então pedi-lhe apenas o que era possível naquele momento, possível para mim e para ela: pedi-lhe para tentar se manter forte porque ele precisava daquela fortaleza, precisava de alguém que o mantivesse de pé.
Ao final da consulta, ela nos agradeceu, um a um, e eu soube que o que podíamos fazer por ela fora feito. E soube que os parentes também precisam desse nosso remédio chamado Atenção!


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Com que sentimento me olhava?

Imagem retirada de rabiscandopoesiasrj.blogspot.com

Deu um passinho para trás quando nos viu na sala. Éramos quatro estudantes observando-o entrar. Ainda assim, ao comando do médico, ele entrou. E, por fim, disse que precisava dar uma palavrinha em particular com o médico. "Não se preocupe, Fulano, o que o senhor disser aqui é resguardado pelo sigilo médico", tranquilizou-o o doutor. O paciente olhou-nos mais uma vez, titubeou como se nossas "carinhas juvenis" não lhe dessem a segurança necessária para prosseguir, mas ainda assim sentou-se.
Aquela seria a minha primeira entrevista com um paciente soropositivo e ali estava eu, caneta a postos, estetoscópio pesando no pescoço, o jaleco esquentando... Comecei as perguntas conforme o roteiro: nome, idade, profissão. A parte que eu mais temia perguntar, por provavelmente ter pouco jeito com quilo, era sobre a sexualidade. "Pacientes HIV positivos não gostam de falar sobre como provavelmente adquiriu o vírus", pensava eu. Porém, além da minha clara ignorância em estreitar a transmissão apenas para a via sexual (e os acidentes perfuro-cortantes? E as transfusões? E...?), esta parte da entrevista foi tranquila.
Entretanto, com o passar das explanações do médico acerca da nova vida que o paciente deveria ter ("use camisinha, coma frutas e verduras, faça exercícios, venha periodicamente ao meu consultório"), SEUS OLHOS FICAVAM MAREJADOS E ELE PARECIA QUE IA CORRER A QUALQUER MOMENTO DALI. E eu já não mais falava, apenas o olhava.
Depois de todos os atendimentos, saíamos conversando alto, quatro estudantes que continuariam a vida apesar de tudo o que fora dito e discutido. Quando, de relance, vejo o paciente na porta do consultório. Ainda que passasse repetidas vezes as mão embaixo dos olhos, elas não eram rápidas o suficiente para impedir que a profusão de lágrimas rolasse. Eu definitivamente não estava em condições de consolá-lo, não tinha como eu fazer aquilo, sentia-me absolutamente despreparada. Conversei com minha amiga, que por sua vez foi conversar com ele. Quando retornou me disse "É, ele estava mesmo precisando disso!"

domingo, 29 de abril de 2012

Vergonha

Imagem retirada de revolucionaria.files.wordpress.com
Entrou como se pedisse licença para existir. Mas não precisava. Quem pedia licença éramos nós, estudantes, compartilhando com aquele senhor a posse da sua doença. Sua filha seguiu com passos mais confiantes. O professor se pronunciou, perguntou-lhe o nome e pediu que se sentasse na maca.
- Seu Fulano, o senhor pode, por favor, tirar a camisa?
Tiritando de frio, o senhor retirou vagarosamente a blusa, os botões teimando em brincar por entre os dedos que sacudiam junto com o corpo. Ele estava envergonhado! E sua vergonha não vinha somente do tom de voz alto e jovial do médico que conflitava com os nossos olhares apreensivos. Não vinha somente do fato de ter corrido a vida assim, hígido e confiante, e, de repente, encontrar-se precisando de ajuda. SUA VERGONHA VINHA TALVEZ DO FATO DE SUA DOENÇA SER TÃO ESTIGMATIZANTE E QUE, PARA CHEGAR ALI NO CONSULTÓRIO, PASSARA ANTES POR DIVERSOS OLHARES CURIOSOS, ÀS VEZES PRECONCEITUOSOS, que viam sua pele toda descamando e não sabia do que se tratava.
Sobre o vermelho intenso de sua pele que queimava, milhares de casquinhas brancas se soltavam. "Eritrodermia!", cortou o silêncio novamente, com seu tom de voz jovial, o professor. A filha olhava com atenção para o médico, esperando talvez a palavra mais ansiada nos consultórios, ambulatórios e hospitais: "cura". Esperou, esperou, esperou... e o médico nos contava de que se tratava aquela manifestação, o que sentia o paciente, quais medicações deveriam ser prescritas.
E, indiferente à espera de sua filha, ao conhecimento vasto do médico e aos olhares curiosos dos alunos, o senhor se calava em toda a simplicidade que a doença pode nos trazer. Calava um silêncio que me gritou aos ouvidos: ele sofria!

sábado, 17 de março de 2012

Quando não se satisfez sua vontade...

Imagem retirada de 4.bp.blogspot.com
A voz alterada no consultório contíguo chamou atenção. Parecia alguém que brigava consigo mesmo, já que a outra voz - a que respondia - estava tão baixa que mal ouvíamos. Nós, curiosos, fomos à sala para ver do que se tratava. Encontramos o homem questionando, transtornado, porque a estudante não escrevia logo um atestado dizendo que ele estava doente por causa do estresse do seu trabalho.
- Mas senhor, eu não posso escrever isso. Isso é só uma hipótese sobre a doença.
- Mas você disse que o estresse POOOODE causar isso, não disse? Então escreva!
E completou
- Como é mesmo o seu nome? – olhou no jaleco – Ah! Fulana de Tal! Olhe, Fulana de Tal, você é tão bonitinha, mas a sua ética é feia!
A estudante olhou para a médica, que acabara de entrar na sala. Contou-lhe a história, interrompida várias vezes pelo homem. A médica ouviu, olhou-o e saiu. O HOMEM CONTINUOU O INQUÉRITO. OLHAVA NOS JALECOS OS NOSSOS NOMES E NOS PERGUNTAVA DIRETAMENTE SE ELE TINHA RAZÃO OU NÃO. Perguntou para os meus colegas e por fim, chegou a minha vez...
- É... Au... Audinne, me diga, você como médica não me daria um atestado dizendo que estou doente? Não é o meu direito como paciente, não?
- Daria sim...
- Tava vendo??? – gritou ele, interrompendo a minha fala.
- Daria um atestado dizendo que o senhor está doente, mas não colocaria que é por causa de estresse, já que não há como provar isso.
Ele me olhou sem dizer nada, afinal esta opção faria apenas a metade do que ele queria: queria um atestado que permitisse que ele se aposentasse alegando doença laboral. Mas não havia como provar isso! A médica retornou, dizendo que ele faria um tratamento lá mesmo, com outro profissional.
Ele ficou na porta, cercando-nos por algum tempo. Parecia decidido a conseguir o atestado. Bem, depois saiu, mas aquilo ficou na minha cabeça: "você é tão bonitinha, mas sua ética é feia". Decerto, um julgo incorreto... muito incorreto!


quinta-feira, 15 de março de 2012

Um caso de amor

Imagem retirada de http://portal.saude.gov.br
"DOI DEMAIS. ESQUECER DOI DEMAIS"
"E não é que doi mesmo?", pensei e imaginei como eu reagiria em uma situação dessas...
***
Um homem feito (como se diz popularmente), quase às lágrimas, contava a sua trajetória para a gente. Dizia do tempo em que passeara por diversos locais e nos fazia inveja com a sua memória de computador.
- E quando foi que o senhor fez isso, Seu Fulano?
- Foi no dia 19 de novembro de 1958 - falava assim, como se falasse do que comeu naquela manhã.
No decorrer da consulta, o seu principal problema estava exposto. A separação de sua mulher o corroia por dentro e, saudável que sempre foi, estava agora triste, com o choro fácil e tomando mais medicações.
Em um dado momento, ele disse sobre a separação:
- A gente ia fazer 60 anos de casados, mas eu considero mais porque eu conhecia ela antes... Falava com ela de manhã, antes de sair pro trabalho; à tarde, quando voltava para almoçar; e quando voltava à noite... EU VIVI QUASE A MINHA VIDA TODA AO LADO DELA. É muito sofrimento.
Nesses instantes, o seu olhar se perdia numa vastidão de cenas que decerto passeavam em sua mente, em uma valsa constante e ensurdecedora. Ele havia se desfeito de muita coisa para esquecê-la. Doou os bichos de estimação e o primeiro presente que comprou para ela. Mudou a rotina. Pediu ajuda do filho. Mas parecia tratar-se de uma doença da qual a Medicina ainda não conseguiu medicar: a saudade. Aquela saudade que doi fininho no coração e não nos deixa agir. Aquela que vem, se instala e dita quais serão as nossas ações, os nossos pensamentos e até os nossos sonhos. A saudades que não nos deixa dormir...
- Como está o sono, Seu Fulano? Tá dormindo direitinho?
- Não, tô não. Eu deito na cama e fico vendo TV. Dai, quando o sono vem eu me ajeito na cama, mas não consigo dormir.
Tudo isso depois que ela saiu de casa. Falou da desilusão, que estava se sentindo abandonado por quem mais queria bem. E, lá pelas tantas, disse uma verdade que nos mostra o quanto o nosso egoísmo nos deixa doentes e que me permitiu entender muito dele, de mim e de tantas outras pessoas...:
 "A contrariedade dá um mal-estar muito grande na gente"
E como o amor doi... como doi!

sábado, 10 de março de 2012

O dia em que errei

Imagem retirada de damien-antimatter.blogspot.com
Os atendimentos seguiam normalmente. Adolescentes e idosos eram atendidos e, por fim, o doutor-professor os via. Eu já havia ouvido falar em transferência e contra-transferência no atendimento médico. É mais ou menos quando o paciente deposita suas experiências de vida no médico e o médico deposita as suas de volta, podendo ser positivas (como quando uma paciente lembra sua vovozinha boazinha) ou negativas (quando ele lembra aquele seu vizinho insuportável). Porém, ainda não  havia acontecido comigo... até aquele dia.
Sentou-se à minha frente. A sua forma de agir não diferia em nada dos demais atendimentos daquela tarde. Apresentou um pacote de folhas, exames novinhos nos foram entregues. "Trouxe para mostrar pro doutor", disse olhando além de onde estávamos, olhando para o Doutor que estava em outra mesa logo atrás da gente, ocupado com outros pacientes. A minha colega perguntou se ele tinha pressão alta e diabetes.
- Foi pra isso que eu fiz o exame, pra saber se tenho 'diabete'.
Analisamos o exame e, de fato, ele tinha diabetes. Perguntei se sua consulta estava agendada no posto de saúde, para o dia seguinte (como havia me confirmado a agente de saúde). Ele disse que não, 'que isso e aquilo'. Em resumo: queria ser visto pelo doutor, e HOJE.
Perguntei ao médico qual seria a prescrição, na outra mesa. Quando voltei com a resposta, o paciente perguntou se o médico não veria o exame. Levei o exame ao médico, que me repetiu o que fazer.
- Ele tinha passado um remédio para mim quando me viu da outra vez - disse o paciente.
- Era um remédio grande, ... Metformina? - perguntei, já que ele não havia trazido a receita.
- Não, é um roxo, pequeno.
- Roxo... roxo... Será que é o Captopril? - pensei alto, enquanto tentava adivinhar de que medicação ele estava falando.
- Captopril é para pressão, menina! - FALOU DE MANEIRA QUE ME PARECEU DUVIDAR DE QUE EU SABIA PARA QUE SE PRESCREVIA AQUELE MEDICAMENTO.
A consulta não foi nada agradável. Difere em muito dos relatos que sempre trago a vocês... MAS EU PRECISAVA CONTAR COMO ERA UM ATENDIMENTO QUE NÃO DEU CERTO. O objetivo foi alcançado - ver os exames e medicar corretamente o paciente - mas os MEUS objetivos não foram! Sai de lá frustrada, como se os demais atendimentos do dia não houvessem sequer ocorrido. Esqueci da menina-triste e da vovozinha-que-voltou-a-estudar. Apenas aquele erro importou ao fim do dia: o dia em que não atendi corretamente, que a empatia não foi alcançada!


domingo, 4 de março de 2012

Em um mundo só seu

Imagem retirada de osconselheiros.com

Demência. Não conhecia a face dessa doença até aquele dia. Ou melhor. Conhecia em grau leve ou em livro, o que nunca é igual a deparar quem sofre. No consultório apertado, seis estudantes esperavam ansiosos seu primeiro atendimento, quando entrou aquela família. Um homem, bem idoso, caminhava com alguma dificuldade, como se houvesse esquecido que, depois de por o pé direito à frente precisava trazer o esquerdo em seguida, para andar. A filha trazia no rosto a aflição de quem passou algumas noites em claro. A esposa trazia no rosto a tristeza.
No desenrolar da consulta, histórias surpreendentes eram narradas por aquelas senhoras. Histórias de alguém que teima para vestir-se, que esquece como engolir a sopa, que não pode mais estar sozinho em casa. Visivelmente alterada, a esposa disse-nos “EU NÃO CONHECIA ESSA DOENÇA, MAS É A PIOR DOENÇA QUE JÁ VI NA VIDA”. Doença de nome estranho, já há muito aprendida por aquelas duas mulheres simplórias: Alzheimer. A esposa olhou-nos com uns olhos muito vivos e marejados:
- Tô com meus olhos que quase não enxergo mais de tanto chorar – disse-nos, entregando-se às lágrimas.
Porém, mais surpreendente ainda foi ver que ele, o paciente, diagnosticado com “o alemão” (como dizem popularmente sobre a Doença de Alzheimer) estava, sim, percebendo algumas de nossas ações, chegando a interagir em alguns breves momentos e julgar em outros.
- Doutor ... vou lhe dizer uma coisa ... o senhor esqueceu ... – balbuciavam aqueles lábios já riscados pelas linhas do tempo - ... o senhor esqueceu a parte de olhar.
Ele realmente estaria reclamando do médico que, mesmo dizendo “pode falar, seu Fulano, estou escutando”, continuava escrevendo, sem olhar para ele? Ademais, o senhorzinho falador continuou:
- A gente tem prazer ... de ver assim, 4 ... 5, 6 doutores ... dando duro num serviço ... desse aqui.
Não sei se me surpreendi mais com a situação dos familiares, já calejados dos dias e noites tentando dar os remédios, colocar para dormir; ou foi com o olhar de filha que reconhece o pai, ainda que por detrás do Alzheimer; ou se foi com aqueles rompantes de clareza, como se se lembrasse da lucidez encoberta pelos dez anos de doença. Não sei.
E, depois, o senhor continuou a nos contar dos cavalos do seu tempo de menino e a pegar pequenos objetos imaginários que teimavam em cair no chão.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Homem Vulnerável

Imagem retirada de foz9.wordpress.com

Entramos na enfermaria e um odor desagradável irritou-me as narinas. O café-da-manhã embrulhava no meu estômago e parecia fazer toc-toc em uma porta, pedindo para sair. Concentrei-me na cena: dois homens deitados nos leitos da Urologia, sem acompanhantes, pareciam recém-acordados de uma noite bem dormida. O que estava mais próximo recebeu a todos com um sorriso aberto. O doutor que o acompanhava perguntou cordialmente como ele estava e se já estava ansioso com  a cirurgia que seria dali a pouco. Na enfermaria, um outro paciente observava a movimentação. O médico solicitou que ele saísse por alguns instantes, ao que ele concordou prontamente, levantando-se e fechando a porta atrás de si. Achei estranha a atitude, já que, de rotina, atendíamos a todos os pacientes perante os demais, sem cerimônias.
O doutor perguntou-lhe se sentia alguma dor e se poderia mostrar a região do tumor para os alunos.
- Vocês sabem o que é tumor de Buschke-Loewenstein?
Minha colega e eu nos entreolhamos. Ela disse que já ouviu este epônimo, porém não se recordava do que se tratava. O paciente baixou o short e mostrou o grande tumor nas partes íntimas, mantendo ainda o mesmo sorriso com que nos recepcionou. Disse que não tinha vergonha, afinal estávamos todos lá para aprender e em breve estaríamos salvando vidas...
"Salvando vidas", ESSAS PALAVRAS AINDA ECOAM AQUI NA MINHA CABEÇA, GIRANDO E GIRANDO COMO SE PROCURASSEM O SENTIDO EM TUDO ISSO. Um homem exposto, vulnerável, desprendido de seus pudores para salvar sua vida e nos ensinar: ensinar que não levamos nada da vida, a não ser o que de bom fazemos aos outros, o que nos faz ter a certeza de que nossa vida não é desprovida de sentido.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Não joguem a primeira pedra! Aliás, pedra nenhuma!

Imagem retirada de lealdadefeminina.blogspot.com
Interessante como estudar na área da saúde tem me permitido, cada vez mais, perceber e entender algumas situações humanas em que antes eu nem pensava. Como entender a vergonha que uma mãe tem da filha?
Estávamos em mais um atendimento quando entrou aquela dupla: mãe e filha, esta bem cuidada e aparentemente saudável e aquela, arrumada e maquiada. Quando começou a contar sua história, olhei para a pequenina e procurei algum sinal do que ela narrara: a criança havia nascido com o sistema digestivo incompleto, sendo necessário fazer um desvio do trajeto natural das fezes, que passariam a sair por um "buraquinho" feito por cirurgia na "barriga". A cirurgia já havia sido feita desde que ela nascera.
A criança nos olhava, estava calma no colo da mãe. Perguntei sobre a idade dela e já estava em idade escolar. AO PERGUNTAR O PORQUÊ DE NÃO LEVAR A CRIANÇA À ESCOLA, A MÃE RESPONDEU QUE NÃO SABIA COMO CONTAR AQUILO ÀS PESSOAS NA ESCOLA. Nossa! Passou-me pela cabeça tudo o que os nossos responsáveis fazem para nos proteger, mas proteger de quê? Do que as pessoas vão dizer? Do que você vai ter que enfrentar? Proteger de quê?!
Aquela mulher estava preocupada e envergonhada. Como ela faria para enfrentar um sociedade que não se preocupa apenas com a sua vida, mas se interessa pelos problemas dos outros, repassa-os, critica-os. Imaginei os pensamentos sofríveis que aquela mãe tinha ao pensar em expor a sua filha daquela maneira, avisar para professores e diretor do problema dela e compartilhar de sua realidade com outras pessoas. A mãe ainda disse que morava em uma cidade pequena e que tinha inclusive pessoas na família que não sabia disto!
Não cabe a ninguém criticar a atitude da mãe, mas eu tentei entender os motivos que lhe fizeram tomar tal atitude. Aconselhei-a a pensar mais sobre colocar sua filha na escola, para que ela não ficasse tão atrasada nos estudos, porém reconheço que não é somente um conselho que vai mudar a vida daquela mulher. EM UMA SOCIEDADE EM QUE NÃO SE PERMITE SER "DIFERENTE", NÃO É NADA FÁCIL QUE OS "DIFERENTES" SE ACEITEM COMO SÃO!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Humanos como Desumanos

Imagem retirada de: voceemminhanovavida.blogspot.com
Nós nunca temos ideia do que a vida nos reserva. Assim era aquela senhora, debilitada, na maca do hospital. Já fora mãe, é verdade, mas perder um filho sempre mexe com a mulher. Nós, alunos, estávamos todos muito interessados em ouvir o que lhe acontecera, que procedimentos seriam feitos com ela e como aquilo tudo iria terminar. Ela contava cada detalhe, falava da sua primeira gravidez e como descobrira esta. Contou das dores e náuseas que sentira e do medo que tinha do seu diagnóstico. Abortamento espontâneo, o que deve passar na cabeça de uma mulher?
Ao manusear a sua pilha de exames, o médico nos contava o que havia nos exames da paciente. Ultrassom, exame de sangue, de hormônios... uma pequena lista que contava parte da história pela qual ela passou, mas nada dizia dos seus sentimentos.
Lá pelas tantas, o médico apontou-nos um laudo e disse "feto morto". Apontou-nos uma imagem do ultrassom e disse "feto morto". Apontou a história anotada por outro médico e disse "feto morto"... e nessa sucessão de palavras, olhei para a paciente e vi aquela mulher segura de sua situação chorar. Eram lágrimas abafadas, talvez pela vergonha de se despir os sentimentos ante quase uma dezena de alunos, mas eram lágrimas fortes o suficiente para lacerar meu coração. Como lidar com situações tão íntimas sem sequer se interessar pelo que se passa com o outro? E a imagem de um feto morto veio à minha mente e NÃO PUDE DEIXAR DE PERCEBER O QUANTO TEMOS LIDADO COM HUMANOS DE FORMA TÃO DESUMANA!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Como não gostar...?

Imagem retirada de: planetaeducacao.com.br
Timidamente começou a cantar. As palavras saiam dela e ganhavam o silêncio da sala cheia de olhos que a olhavam. Quando eu penso que a medicina não vai mais me surpreender, acontece dessas. Ela cantava um "arco-íris" que lhe tirava daquele mundo e a transportava para um lugar...
"Um dia eu quis subir numa estrela e acordar bem longe numa nuvem"...
 Quando a menina acanhada entrou, não pensava que ela iria cooperar com a consulta. Muito calada, vinha sendo trazida pelos pais. Depois, as história que eu ouvi não condiziam com aquela "criança":  uma moça que sofrera desde criança e que teve uma vida intensa, estudou, brincou, bateu, riu, chorou... O professor disse, de outras consultas, que gostava de quando ela cantava e que conversava com os alunos. Ela nos olhou, hesitou e, por fim, concordou em nos dar essa "palhinha", e esse presente para mim!
Os pais (acredite, nos tempos de hoje, pais irem juntos a uma consulta é muito raro) tinham-lhe um amor inenarrável. Eram prova de que é possível crer em um sentimento verdadeiro e crer na família como unidade.
De repente, olhou para o pai e disse, em bom tom: "Pai, te amo". E para a mãe: "Mãe, te amo". Disse ainda que não sabia porque as pessoas não queriam conversar com ela, já que todos somos irmãos, e aquilo me doeu. Temos tanto preconceito em nossos olhos que ele nos envenena as ações.
Depois ela foi-se, com toda a sua história e toda a sua voz... e eu fiquei com mais esse aprendizado: O AMOR NÃO TEM SANIDADE OU INSANIDADE. ELE APENAS É AMOR!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Olhos de pessoa tímida e irritada

Imagem retirada de: roselymsilveira.blogspot.com
Ela entrou cheia de tralhas e visivelmente incomodada. Trazia seus filhos e o marido à tiracolo e nos olhava de lado, respondendo secamente ao que era perguntado. Aquela situação incomodou a todos os seis estudantes, mas apenas continuamos o atendimento.

- Fulano nasceu com quantos quilos? E Sicrano?
- O parto foi normal?
- Como você dá banho neles, mãezinha?

Ela respondia a um e outro com uma propriedade de sua situação impressionante. Conhecia todos os detalhes de seus filhos e aparentava um zelo extremista. Lá pelas tantas, ao ser inquerida o porquê de tomar determinada atitude em relação aos filhos ela simplesmente respondeu "Faço assim porque eu quero!".
Quando a professora entrou na sala, A PACIENTE OLHOU-A E DISSE "MAIS GENTE PRA ASSISTIR!?". A professora falou que era necessário, explicou a situação, dizendo tratar-se de um hospital universitário, etc, etc. Continuou conversando com ela ao passo que nos veio a revelação que mudou completamente o ponto de vista sobre as atitudes desta senhora. Tratava-se de uma paciente com possível diagnóstico de AIDS e que temia pela saúde dos seus filhos.
Tudo passou a fazer sentido e nós, como humanos, pecamos por julgar antes de entender. Após o atendimento, quando ficamos apenas professora e alunos, aquela nos disse da primeira impressão negativa e como ela havia se enfurecido pela postura hostil da paciente; e que agora ela reconhecia também seu erro em julgar precipitadamente. É muito mais fácil para todos incomodar-se com a "grosseria" sem no entanto procurar motivos para isso. Essa é mais uma lição que me vai ficar: ESTAMOS CONFORTÁVEIS EM NOSSO MUNDO, MAS AS PESSOAS QUE CHEGAM A NÓS TÊM SUAS VIDAS E SEUS SOFRIMENTOS.

domingo, 16 de outubro de 2011

Será que eu tenho essa força?

Imagem retirada de: vivamaisunicamp.wordpress.com
Em uma das aulas, dessas que nunca são rotineiras, tive uma experiência que pretendo não esquecer. Primeiro porque a gente nunca espera que as pessoas tratem seus problemas tão abertamente entre tantos outros desconhecidos (nós, estudantes!). Segundo, porque as lições que tive naquele dia foram inesquecíveis!
Ouvíamos o relato de pacientes que tiveram suas vidas divididas com o alcoolismo. Divididas porque anestesiar-se com a droga não é viver, é algo paralelo a isso. Eles haviam usados outras drogas, perdido oportunidades e família. Eles estavam lutando para conseguir se firmar na vida, tentando reconquistar a confiança dos entes e voltar à sociedade.
Um deles, pessoa estudada e de fala fluente, me chamou atenção. Não por causa dessas características, mas pela forma como abriu-nos seu problema. A situação era simples: ele era uma pessoa viciada, que usava medicações para não deslizar de novo e que queria se firmar na vida, apesar de saber que o tempo que ele perdeu não voltará! Mas quando o professor falou da necessidade que ele tinha de lutar contra as drogas, ele falou-nos com uma voz que não vinha da garganta, mas do fundo de seu coração já machucado demais pelas circunstâncias da vida: Será que eu tenho essa força?
Em outro momento, ele disse algo que eu tento incutir na mente, mas isso não é nada fácil. Disse que RESOLVER O PROBLEMA DOS OUTROS É FÁCIL, DIFÍCIL É RESOLVER OS NOSSOS PRÓPRIOS PROBLEMAS e disse que essa era uma oportunidade única de aprendermos antes de por em prática e cobrarem da gente a cura de pessoas com ele.
O interessante é que na nossa posição de observadores das ações dos pacientes, diversas vezes esquecemos de fazer essa auto-análise. E QUEM QUER ENXERGAR SEUS PRÓPRIOS DEFEITOS, SUAS FRAQUEZAS E FALHAS? Sempre fui relutante quanto a diversos aspectos da psiquiatria, e quem me conhece sabe que isso é de muito tempo. Mas devo reconhecer a importância de nos conhecermos, de buscar respostas para o que nos aflige e de ajudar os que sofrem a dor da alma!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Não vi sequer seus olhos

Imagem retirada de escrevalolaescreva.blogspot.com
Estávamos todos ansiosos para o que iria acontecer: assistiríamos a nossa primeira consulta ginecológica. Quando viemos ao consultório, estávamos em bando - uma porção de alunos de jaleco branco. A paciente, que aguardava do lado de fora do consultório, viu-nos aproximando.
Ficamos discutindo como o professor sobre os procedimentos e percebemos uma movimentação lá fora. A paciente disse não queria mais fazer o exame e que iria embora. Certamente estava em seu direito e ai vem a grande dúvida que nos persegue a faculdade inteira: precisamos dos pacientes para aprender a ser médicos, mas como fazer quando estes se recusam o atendimento quando estamos?
O professor e os funcionário ficaram explicando que era necessário ela fazer o exame, resmungando que a paciente era isso ou aquilo e inquietos para resolver logo a situação. Por fim, ela concordou em fazer o exame.
Entro na sala rapidamente, preparou-se para o procedimento, deitou na maca e encobriu o rosto. Em nenhum momento vi seus olhos ou dirigi-lhe a palavra. EU NÃO SERIA CAPAZ DE DESCREVER COM PALAVRAS O CONSTRANGIMENTO QUE EU SENTIA. Ela parecia escrava a quem se impõe uma ordem e que ela realiza, mas com um ódio dos seus "senhorzinhos". Eu queria sair dali!
Estabelecer uma boa relação com o paciente, explicando os procedimentos e dando-lhe o direito de opinar é algo que transcende o que aprendemos na faculdade. Mas não é impossível de se aprender. O fato é que o paciente, principalmente estando em um local de atendimento público, pode se achar fragilizado, dando margem a alguns deslizes de quem lida com eles. Neste dia não aprendi apenas o que era uma colposcopia ou como estadiar o câncer de colo do útero, mas aprendi coisas que se deve levar para a vida: que aquele constrangimento eu não quero mais presenciar!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

E seu riso era como o dia...

Portrait of a Negress 1800 by Marie-Guillemine Benoist
Quando ela entrou no consultório, eu não sabia a que vinha. Era uma senhora algo sofrida, encurvada e mancava por causa de uns problemas que teve; trazia marcas da doença que a acompanhava a tempos e referia dores  em várias partes do corpo.
Sentou-se. Quando começou a falar sua história, eu estava a um canto, calada, observando. SEUS TREJEITOS TRADUZIAM UMA SENHORA QUE GOSTA DA VIDA, MAS QUE ESTA DECIDIU DAR-LHE O FARDO DE SUA DOENÇA. Por vezes, quando perguntávamos se tinha mais alguma queixa da doença, esquecia e era lembrada pelo acompanhante - parecia até que não estava se importando com a peça que a vida pregou-he.
Lá pelas tantas, começamos a perguntar sobre seus hábitos e ao ser perguntada se fumava, disse rapidamente que fumou por duas semanas, mas que não aguentou ... o preço do cigarro! Fazia-nos rir junto com suas histórias e não se incomodou quando quase uma dezena de pessoas se amontoou no consultório para também ouvir a história das suas "agruras".
Disse ainda que passou o mês de férias todo contando os dias para chegar esse momento, o da consulta na Universidade. A residente, intrigada, perguntou o porquê disso, ao que ouvimos:
- ADORO SER ATENDIDA AQUI. É TANTA GENTE DANDO ATENÇÃO PRA GENTE!
Contou que, de uma outra vez que ficou internada lá, houve uma aula na beira do leito em que estava. Começou a discussão sobre seu caso e o professor, inquisitivo, perguntou algo aos alunos. Ninguém estava sabendo a resposta, mas, como ela mesma disse, ela ouviu tantas vezes essa aula que cochichou para o aluno mais próximo a resposta! E era a resposta correta!
Nossa! E ainda duvidam que os pacientes têm o que nos ensinar!!!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A dor invisível

"De médico e louco..."
Como fiz quando tive o meu primeiro contato com paciente pediátrico (leia em "E agora? O que vou fazer?"), vou narrar hoje minha primeira experiência com um paciente psiquiátrico.
Nunca fui muito fã de psiquiatria, na verdade tenho alguns problemas para compreender termos e aceitar algumas das teorias sexuais de Freud... Mas o fato é que não podemos 'não gostar' de algo antes de conhecer (nota mental quase nunca cumprida por mim!).
Quando o paciente começou a falar, as definições que nos foram apresentadas nas aulas teóricas afloraram na minha mente e a figura descrita pelo professor estava realmente ali, na minha frente. Um ser humano de carne e osso que o professor definiu como AQUELE QUE TEM UMA DOR INVISÍVEL, UM SOFRIMENTO DA ALMA, dai a difícil configuração no meio acadêmico de sua "doença".
Suas explicações efusivas de como era (ou não era) a sua vida me tocaram profundamente principalmente pela imagem negativa que carrego previamente, que a sociedade mesmo fez o "favor" de pintar para mim: manicômios, camisas de força, agressões, gritos guturais...
Eu, leiga em assuntos psiquiátricos, trazia comigo uma carga social cheia de preconceitos, alguns deles quebrados nessa primeira experiência. Em algum momento da entrevista com este paciente, ele disse algo que me fez relembrar o que me anseia profundamente e que precisei tomar nota para contar aqui a vocês; no meio de seus dizeres rápidos, quase vomitados, porém não tão desconexos, ELE DISSE "EU SOU IMPORTANTE... PARA MIM MESMO". Claro! Esse é o grito do nosso superego que se cala por causa da sociedade. Todos somos o centro das nossas vidas e achamos que somos o centro das vidas das demais pessoas... (não sempre, mas muitas vezes!)
Como costumo falar aqui no blog, eles, os pacientes, sempre trazem algo de novo para a gente, um aprendizado que nos constroi como profissionais, como cidadãos, como pessoas...

sábado, 25 de junho de 2011

Não há só o seu mundo

Imagem retirada de http://downloads.open4group.com
Esses dias tive uma aula interessante que, apesar de não ter tido contato com pacientes, me esclareceu algumas verdades que teimo em esquecer.
Era uma aula de campo sobre a História da Medicina e fomos visitar uma famosa instituição da cidade: Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza, completando (em 2011) seus 150 anos. Não chegamos a entrar, mas nos foram discorridas as situações que ocorreram ali durante sua longa história e as riquezas de seus arredores, onde se localiza uma importante praça da cidade - o Passeio Público. Ao passo que o professor contava que a Santa Casa fora construída de frente para o mar (que, como acreditavam, sanaria as impurezas do ambiente levando-as para longe), me peguei refletindo A NOSSA PEQUENEZ ANTE A GRANDEZA QUE É A VIDA. OU MELHOR, AS VIDAS! Assim, ficou-me muito claro naquele instante que tratamos pessoas, e não suas doenças. Sacal? Talvez! Mas nem por isso deixa de ser verdadeiro.
Costumamos, enquanto estudantes e/ou profissionais da saúde, ver nossos locais de trabalho e seus frequentadores como salas desarrumadas e máquinas quebradas, nesta ordem. Esquecemos, porém, que suas vidas não são aquelas doenças e que o que importa não é somente aquele momento. A Santa Casa completa 150 anos e quantas histórias fizeram-na chegar ao que é! Quantas pessoas não olharam por suas janelas, vislumbrando o mar e desejando apenas que aquela fase de doença passasse para cuidar do filho, ralhar o marido, sorrir com os amigos...
SOMOS SERES COMPLETOS, MULTI-FACETADOS. MAS NÃO SOMOS O CENTRO DO UNIVERSO. SOMOS UM PEDAÇO DESTE. Apenas nossa arrogância não nos permite conviver bem com essa verdade!