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segunda-feira, 25 de julho de 2011

Série Sentimentos: Pacientes Ensinam a Alegria

Imagem de: coisasparacriancas.com
Alegria não se ensina, é algo que apenas se sente... é verdade? Um dia uma criança, um paciente, me ensinou a alegria. E é isso que lhes vou contar aqui!
Ele era pequenino e magrinho. Muito fora da curva de crescimento que se traça das crianças ditas "saudáveis". Chegou à emergência assim, como quem vai a uma loja que nunca havia entrado, apesar de sempre ficar observando a vitrine. Aquela criança de 14 anos sentou na maca "mal engembrada", que de princípio quase lhe derrubou. Pedimo-lhe que se deitasse, porém teimou em querer ver o que iria acontecer com aquele corte na perna. O mais interessante de tudo é que, a despeito da nossa rotina (de alertar para a criança que não vai doer muito; que logo, logo ele estaria brincando), aquele menino continuou olhando atentamente sem dizer palavra, sem parecer querer chorar. Já lhes contei a história de uma mulher que tinha trauma de agulhas? Bem, já sim (para ler essa outra história, clique aqui)! Pois foi desta história que me lembrei ao ver a seguinte cena.
A anestesia foi colocada ao redor do ferimento, e o pequenino perguntou apenas se iria furar (com a agulha) dentro do corte. Após feita a aplicação, começou a "costura" e foi ai que eu aprendi o sentido da alegria. Aqueles olhos pertenciam a uma criança - que sofrera pela vida. Cortou-se em um carrinho de catador de lixo, seria seu instrumento de trabalho? Deveras, não sei! Mas o fato é que aqueles olhos brilhavam e a sua boca desenhava um sorriso bobo que, como eu disse, parecia de quem apenas via a vitrine e agora pode adentrar à loja!
O MENINO CRESCIDO, QUE NÃO CHOROU PELA DOR, SORRIU PARA MIM E DISSE QUE NÃO DOIA. Estava fascinado porque não estava sentindo nada, apesar do vai e vem da agulha na sua pele! Então eu aprendi o que era alegria... Alegria é quando se pensa algo ruim, fica apreensivo pelo que pode acontecer e, quando acontece, tem-se a agradável notícia de que nada de ruim vai acontecer. ALEGRIA É PODER SORRIR APESAR DO QUE SE PASSOU. Alegria foi poder ter visto uma criança, dentre as tantas e tantas atendidas que, ao final do tratamento, agradeceu pelo que fizemos e saiu feliz por não estar sentindo mais nada!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Série Sentimento: Pacientes Ensinam a Preocupação

Imagem retirada do blog maepreocupada.blogspot.com
Estava dando uma olhadinha em uns blogs na rede, e deparei um que falava especificamente sobre um sentimento que nos acomapanha diariamente... a preocupação. Preocupar-se é realmente ocupar previamente seu tempo com pensamentos e cuidados de algo que pode acontecer. Em uma frase de Haddon W. Robinson diz-se: "O que te preocupa, te domina"... isso pode enlouquecer alguém. Mas há vezes que é inevitável, daí vem o sentido de eu mencionar o blog maepreocupada.blogspot.com/ : lembrou-me a preocupação de uma mãe naquilo que observo nos hospitais...

Houve um certo "reboliço" quando aquele jovem entrou na sala. Havia sido espancado por assaltantes que levaram algumas roupas dele (as que ele trazia em uma sacola e no corpo!) e o rapaz foi encontrado inconsciente. Ele estava muito apreensivo, mas, naquele momento, já falava conosco o suficiente para chamar por sua mãe.
Pouco tempo depois, aproximou-se aquela senhora. Mulher forte, já madura, entrou trazendo em seu semblante toda uma preocupação estampada. COMO DESCREVER OS TRAÇOS DO ROSTO DE UMA MÃE QUE VÊ SEU FILHO ESPANCADO IMPUNEMENTE?! Se pudessem ser resumidos a uma palavra, talvez eu escolhesse "desespero".
Feito o atendimento inicial, deixamos que mãe e filho conversassem. Ela queria saber se ele havia reagido ao que ouviu um: "mãe, eles levaram a roupa novinha, que eu acabei de ganhar!". Aquilo me surpreendeu e provavelmente à mãe também. Visivelmente incrédula com o que ele disse, ela falou que ele não deveria ligar para isso, era apenas bem material; que agradecesse, contudo, por estar vivo e sendo atendido...
Mães: estas são o que melhor traduzem o termo preocupação. Em outros plantões, presenciei também essa intensidade de sentimento (como no texto O Grande Amor) e deixo, por fim, uma reflexão aos profissionais de saúde, para que a gente aprenda a lidar com esse forte sentimento, que nos mortifica (a todos) aos poucos:
"Normalmente os homens preocupam-se mais com aquilo que não podem ver que com aquilo que podem" Júlio César, Imperador Romano

terça-feira, 12 de julho de 2011

Série Sentimentos: Pacientes Ensinam a gratidão

Imagem: regionalilheus.blogspot.com
Analisando as dezenas de sentimentos que podemos aprender em nossa vida, a gratidão é certamente o mais charmoso. Charmoso porque não tem os arroubos a que a paixão nos submete, mas não é tão passivo quanto a aceitação. SER GRATO É RECONHECER ALGO DE BOM QUE LHE FOI FEITO E NÃO POSSUIR NADA MAIS QUE PALAVRAS E GESTOS PARA PAGAR AQUELE ATO. Gratidão foi o que um dia me foi ensinado pelos pacientes...
A senhora já estava sendo atendida. Claramente desconfortável naquela maca, e sentindo dores, ela procurava algo para se distrair: começou a conversar. Como eu não estava fazendo o procedimento, pude lhe dar a atenção de que precisava para ignorar que estavam mexendo em seus ferimentos. Ela começou então a contar uma história...
Seu filho, pouco tempo após nascer, ficara doente, mas ninguém conseguia dizer o que ele tinha. Várias visitas em hospitais e vários dias se passaram, e nada de diagnosticar, muito menos dizer de que ele padecia. Seu estado de saúde piorava e ela estava desesperada com a morte iminente de sua criança. Foi quando, em mais uma visita aos médicos, um estudante (interno) olhou com outros olhos para aquele caso. Ele sugeriu que fosse solicitada um tomografia, ao que se diagnosticou abscesso cerebral.
Ela contou que ainda hoje sofre levando seu filho para se tratar, pois ainda não está completamente curado. Mas disse também que será eternamente grata àquele que olhou para seu problema e mostrou-lhe um caminho a ser seguido. E completou dizendo que muitas vezes as pessoas não querem ser atendidas por médicos novinhos (se referindo à nós, estudantes), porém ela sabia que foi um desses novinhos que a ajudou.
AO TERMINAR O PROCEDIMENTO, AGRADECEU BASTANTE E EU FIQUEI COM A SENSAÇÃO DE QUE, AINDA COMO ESTUDANTES, PODEMOS SEMPRE OFERECER ALGO A QUEM ESTÁ PRECISANDO.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Série Sentimentos: Pacientes Ensinam a Raiva

Imagem retirada de: jhonatasricardo.wordpress.com
Sentimentos nobres ou não, estamos todos sujeitos às nossas emoções... Quem nunca sentiu raiva, que atire a primeira mentira!
Plantão bastante movimentado, não parava de chegar pacientes: quedas em casa, quedas de moto, tiros, dores abdominais, espancamentos... Paciente após pacientes, todos igualmente necessitando de ajuda. Assim, como é regra em todos os hospitais de emergência, são atendidos aqueles que apresentam potencial risco de morte antes de quaisquer outros. Partindo desse princípios, vários pacientes graves foram sendo vistos, medicados e encaminhados; e havia um casal que aguardava o atendimento.
Lá pelas tantas, quando mais um paciente bastante debilitado chegara e passara na frente do casal, a mulher ficara bastante irritada. É interessante como cada pessoa se expressa à sua maneira. Ela começou a reclamar que não aceitava esse absurdo, que várias pessoas já haviam passado na frente de seu marido, que isso, que aquilo. A médica começou a lhe explicar os procedimentos na emergência, que aquilo era uma regra de todos os hospitais. A acompanhante, por sua vez, disse que só naquela "porcaria" era que isso ocorria e completou: "MAL-EDUCADA É TU, 'BUNITINHA'".
Logicamente, profissionais devem evitar ao máximo o confronto com os pacientes; porém os pacientes precisam também entender que, primeiro, temos limites e, segundo, também trabalhamos sob pressão. Devemos entender que os pacientes e seus acompanhantes estão temerosos como o que pode acontecer de suas vidas, mas nós também temos nossas preocupações. Aquela médica simplesmente se retirou e solicitou que um colega a substituísse. Achei muito legal a atitude dela. Imagine se, em vez disso, ela revidasse!
Os pacientes nos ensinam o amor, mas também nos ensinam com a sua raiva!

terça-feira, 28 de junho de 2011

Série Sentimentos: Pacientes Ensinam o Amor


Como os propósitos centrais desse blog é relatar o que tenho aprendido com os pacientes e repassar a vocês essas experiências, aqui vai mais um texto das belas coisas que vejo em meio a uma "saúde humana" que está em crise...
O plantão começara cedo. Diferentemente dos demais plantões, este foi durante o dia, então os casos vistos na Emergência são outros. Assim, lá pelas tantas da tarde, entra na sala uma família que trazia uma senhora. Esta apresentava problemas de saúde e estava debilitada. O médico indicou a cirurgia ao passo que emendou dizendo que ERA UMA CIRURGIA DE GRANDE RISCO DE MORTE, SENDO A ÚNICA TERAPIA DISPONÍVEL PARA O CASO.
Essa notícia assim, dada "na lata", sem meias palavras me comoveu não somente pela gravidade da questão, mas principalmente pelas figuras humanas que ali se apresentavam...
Era um casal de meia idade, juntos por quase toda a vida. Ela, acamada e frágil, há tanto tempo com a aliança que esta teimava em sair do dedo (para que ela subisse ao centro cirúrgico era necessário retirar tudo!). Ele, fala leve e amorosa, falava que tudo ia dar certo e lhe acariciava os cabelos. Não sei de suas vidas fora dali, mas aquela simples imagem mostrou-me que OS PACIENTES NOS ENSINAM MUITAS COISAS - OU AS JOGAM EM NOSSAS CARAS, ASSIM, ESCANCARADAMENTE. Estes? Estes me ensinaram o amor, o longo amor que os anos vêm passar.