domingo, 29 de abril de 2012

Vergonha

Imagem retirada de revolucionaria.files.wordpress.com
Entrou como se pedisse licença para existir. Mas não precisava. Quem pedia licença éramos nós, estudantes, compartilhando com aquele senhor a posse da sua doença. Sua filha seguiu com passos mais confiantes. O professor se pronunciou, perguntou-lhe o nome e pediu que se sentasse na maca.
- Seu Fulano, o senhor pode, por favor, tirar a camisa?
Tiritando de frio, o senhor retirou vagarosamente a blusa, os botões teimando em brincar por entre os dedos que sacudiam junto com o corpo. Ele estava envergonhado! E sua vergonha não vinha somente do tom de voz alto e jovial do médico que conflitava com os nossos olhares apreensivos. Não vinha somente do fato de ter corrido a vida assim, hígido e confiante, e, de repente, encontrar-se precisando de ajuda. SUA VERGONHA VINHA TALVEZ DO FATO DE SUA DOENÇA SER TÃO ESTIGMATIZANTE E QUE, PARA CHEGAR ALI NO CONSULTÓRIO, PASSARA ANTES POR DIVERSOS OLHARES CURIOSOS, ÀS VEZES PRECONCEITUOSOS, que viam sua pele toda descamando e não sabia do que se tratava.
Sobre o vermelho intenso de sua pele que queimava, milhares de casquinhas brancas se soltavam. "Eritrodermia!", cortou o silêncio novamente, com seu tom de voz jovial, o professor. A filha olhava com atenção para o médico, esperando talvez a palavra mais ansiada nos consultórios, ambulatórios e hospitais: "cura". Esperou, esperou, esperou... e o médico nos contava de que se tratava aquela manifestação, o que sentia o paciente, quais medicações deveriam ser prescritas.
E, indiferente à espera de sua filha, ao conhecimento vasto do médico e aos olhares curiosos dos alunos, o senhor se calava em toda a simplicidade que a doença pode nos trazer. Calava um silêncio que me gritou aos ouvidos: ele sofria!

sábado, 17 de março de 2012

Quando não se satisfez sua vontade...

Imagem retirada de 4.bp.blogspot.com
A voz alterada no consultório contíguo chamou atenção. Parecia alguém que brigava consigo mesmo, já que a outra voz - a que respondia - estava tão baixa que mal ouvíamos. Nós, curiosos, fomos à sala para ver do que se tratava. Encontramos o homem questionando, transtornado, porque a estudante não escrevia logo um atestado dizendo que ele estava doente por causa do estresse do seu trabalho.
- Mas senhor, eu não posso escrever isso. Isso é só uma hipótese sobre a doença.
- Mas você disse que o estresse POOOODE causar isso, não disse? Então escreva!
E completou
- Como é mesmo o seu nome? – olhou no jaleco – Ah! Fulana de Tal! Olhe, Fulana de Tal, você é tão bonitinha, mas a sua ética é feia!
A estudante olhou para a médica, que acabara de entrar na sala. Contou-lhe a história, interrompida várias vezes pelo homem. A médica ouviu, olhou-o e saiu. O HOMEM CONTINUOU O INQUÉRITO. OLHAVA NOS JALECOS OS NOSSOS NOMES E NOS PERGUNTAVA DIRETAMENTE SE ELE TINHA RAZÃO OU NÃO. Perguntou para os meus colegas e por fim, chegou a minha vez...
- É... Au... Audinne, me diga, você como médica não me daria um atestado dizendo que estou doente? Não é o meu direito como paciente, não?
- Daria sim...
- Tava vendo??? – gritou ele, interrompendo a minha fala.
- Daria um atestado dizendo que o senhor está doente, mas não colocaria que é por causa de estresse, já que não há como provar isso.
Ele me olhou sem dizer nada, afinal esta opção faria apenas a metade do que ele queria: queria um atestado que permitisse que ele se aposentasse alegando doença laboral. Mas não havia como provar isso! A médica retornou, dizendo que ele faria um tratamento lá mesmo, com outro profissional.
Ele ficou na porta, cercando-nos por algum tempo. Parecia decidido a conseguir o atestado. Bem, depois saiu, mas aquilo ficou na minha cabeça: "você é tão bonitinha, mas sua ética é feia". Decerto, um julgo incorreto... muito incorreto!


quinta-feira, 15 de março de 2012

Um caso de amor

Imagem retirada de http://portal.saude.gov.br
"DOI DEMAIS. ESQUECER DOI DEMAIS"
"E não é que doi mesmo?", pensei e imaginei como eu reagiria em uma situação dessas...
***
Um homem feito (como se diz popularmente), quase às lágrimas, contava a sua trajetória para a gente. Dizia do tempo em que passeara por diversos locais e nos fazia inveja com a sua memória de computador.
- E quando foi que o senhor fez isso, Seu Fulano?
- Foi no dia 19 de novembro de 1958 - falava assim, como se falasse do que comeu naquela manhã.
No decorrer da consulta, o seu principal problema estava exposto. A separação de sua mulher o corroia por dentro e, saudável que sempre foi, estava agora triste, com o choro fácil e tomando mais medicações.
Em um dado momento, ele disse sobre a separação:
- A gente ia fazer 60 anos de casados, mas eu considero mais porque eu conhecia ela antes... Falava com ela de manhã, antes de sair pro trabalho; à tarde, quando voltava para almoçar; e quando voltava à noite... EU VIVI QUASE A MINHA VIDA TODA AO LADO DELA. É muito sofrimento.
Nesses instantes, o seu olhar se perdia numa vastidão de cenas que decerto passeavam em sua mente, em uma valsa constante e ensurdecedora. Ele havia se desfeito de muita coisa para esquecê-la. Doou os bichos de estimação e o primeiro presente que comprou para ela. Mudou a rotina. Pediu ajuda do filho. Mas parecia tratar-se de uma doença da qual a Medicina ainda não conseguiu medicar: a saudade. Aquela saudade que doi fininho no coração e não nos deixa agir. Aquela que vem, se instala e dita quais serão as nossas ações, os nossos pensamentos e até os nossos sonhos. A saudades que não nos deixa dormir...
- Como está o sono, Seu Fulano? Tá dormindo direitinho?
- Não, tô não. Eu deito na cama e fico vendo TV. Dai, quando o sono vem eu me ajeito na cama, mas não consigo dormir.
Tudo isso depois que ela saiu de casa. Falou da desilusão, que estava se sentindo abandonado por quem mais queria bem. E, lá pelas tantas, disse uma verdade que nos mostra o quanto o nosso egoísmo nos deixa doentes e que me permitiu entender muito dele, de mim e de tantas outras pessoas...:
 "A contrariedade dá um mal-estar muito grande na gente"
E como o amor doi... como doi!

sábado, 10 de março de 2012

O dia em que errei

Imagem retirada de damien-antimatter.blogspot.com
Os atendimentos seguiam normalmente. Adolescentes e idosos eram atendidos e, por fim, o doutor-professor os via. Eu já havia ouvido falar em transferência e contra-transferência no atendimento médico. É mais ou menos quando o paciente deposita suas experiências de vida no médico e o médico deposita as suas de volta, podendo ser positivas (como quando uma paciente lembra sua vovozinha boazinha) ou negativas (quando ele lembra aquele seu vizinho insuportável). Porém, ainda não  havia acontecido comigo... até aquele dia.
Sentou-se à minha frente. A sua forma de agir não diferia em nada dos demais atendimentos daquela tarde. Apresentou um pacote de folhas, exames novinhos nos foram entregues. "Trouxe para mostrar pro doutor", disse olhando além de onde estávamos, olhando para o Doutor que estava em outra mesa logo atrás da gente, ocupado com outros pacientes. A minha colega perguntou se ele tinha pressão alta e diabetes.
- Foi pra isso que eu fiz o exame, pra saber se tenho 'diabete'.
Analisamos o exame e, de fato, ele tinha diabetes. Perguntei se sua consulta estava agendada no posto de saúde, para o dia seguinte (como havia me confirmado a agente de saúde). Ele disse que não, 'que isso e aquilo'. Em resumo: queria ser visto pelo doutor, e HOJE.
Perguntei ao médico qual seria a prescrição, na outra mesa. Quando voltei com a resposta, o paciente perguntou se o médico não veria o exame. Levei o exame ao médico, que me repetiu o que fazer.
- Ele tinha passado um remédio para mim quando me viu da outra vez - disse o paciente.
- Era um remédio grande, ... Metformina? - perguntei, já que ele não havia trazido a receita.
- Não, é um roxo, pequeno.
- Roxo... roxo... Será que é o Captopril? - pensei alto, enquanto tentava adivinhar de que medicação ele estava falando.
- Captopril é para pressão, menina! - FALOU DE MANEIRA QUE ME PARECEU DUVIDAR DE QUE EU SABIA PARA QUE SE PRESCREVIA AQUELE MEDICAMENTO.
A consulta não foi nada agradável. Difere em muito dos relatos que sempre trago a vocês... MAS EU PRECISAVA CONTAR COMO ERA UM ATENDIMENTO QUE NÃO DEU CERTO. O objetivo foi alcançado - ver os exames e medicar corretamente o paciente - mas os MEUS objetivos não foram! Sai de lá frustrada, como se os demais atendimentos do dia não houvessem sequer ocorrido. Esqueci da menina-triste e da vovozinha-que-voltou-a-estudar. Apenas aquele erro importou ao fim do dia: o dia em que não atendi corretamente, que a empatia não foi alcançada!