segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Série "Outras Impressões" - Momento do paciente


O terceiro texto da série foi escrito e vivenciado por Andreza Liara Machado na disciplina que a iniciou em Semiologia. Saber reconhecer o que de bom você pode ofertar, antes de identificar as coisas ruins, é a ideia central desse texto, que nos leva a imaginar os doces olhos de uma vovozinha na enfermaria de um hospital público.

Andreza Liara Machado - estudante de Medicina
"Orientada a seguir um roteiro e a policiar-me para não induzir respostas, entrei no corredor do Hospital com o objetivo de colher uma história. Com a idéia de que eu nada poderia fazer em benefício dos pacientes que lá se encontravam e que mais uma vez teriam que ser bem “pacientes” para doar muito do seu tempo para responder à anamnese e ainda submeter-se à parte do exame físico que tínhamos estudado, segui com certa vergonha, mas com o consolo de que o aprendizado da ocasião me possibilitaria aprender o necessário para ser útil um dia.
Estávamos estudando coração, assim, fui a um quarto com pacientes da cardiologia e me aproximei de uma senhora que concordou em responder à anamnese. NO DECORRER DA ENTREVISTA, ELA COMENTAVA COISAS CADA VEZ MAIS PEESSOAIS. Só o ato de ouvi-la com atenção, parecia que, além de estimulá-la a falar muito sobre si, a deixava feliz. Parecíamos tão íntimas, minha timidez esteve ausente mesmo quando perguntei sobre sua vida sexual, sobre seu relacionamento com sua família e sobre drogas.
Chegou seu suco e, mais do que preocupação em atrapalhar a anamnese, ELA PARECIA NÃO QUERER SER ATRAPALHADA NESSE MOMENTO QUE ERA DELA, que ela se sentia a vontade para narrar tudo que a preocupava, suas expectativas...
Após o breve e incompleto exame físico, era chegada a hora de agradecer e ir. Então, ela tentou levantar-se, e minhas palavras e as de sua nora que insistiam para ela permanecer sentada, já que ela estava recuperando-se de uma cirurgia recente, foram vãs. Ela levantou-se e falou que precisava me dar um abraço.
Segurando-me para não desabar em prantos ali mesmo, saí aos pulos. Com a certeza de que mesmo tendo tão poucos conhecimentos técnicos, simplesmente ouvir ajudou-me a melhorar o dia daquela senhora e, sobretudo, o meu próprio dia. "

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Série "Outras Impressões" - O Perdão pode curar a dor da alma


O segundo texto da série é da autoria de Alexandre Silva, aluno da Faculdade de Medicina UFC - Sobral, que relata mais um dos muitos aprendizados que obteve na vida acadêmica. Lembrando que todos têm algo a nos ensinar... e nossos "pacientes" também o têm!

Alexandre Silva - estudante de Medicina

"De fato, a vida particular dos pacientes só diz respeito a eles mesmos, mas, como todos sabem, o médico, e por extensão o estudante de Medicina, acaba sendo menos médico e mais psicólogo, ouvinte, amigo íntimo ou confidente, dependendo da situação. Pensando nisso, relato aqui um fato ocorrido comigo numa das minhas visitas à enfermaria de Neurologia de um hospital público de Sobral. Chegando à enfermaria 4, deparei um idoso recém-admitido trauma raquimedular e crânio-encefálico, devido a um acidente de moto sem o uso de capacete. Até ai, SERIA MAIS UM CASO COMO MUITOS OUTROS DE ACIDENTE DE MOTOCICLETA QUE LOTAM AS EMERGÊNCIAS E AGRAVAM AS ESTATÍSTICAS DE MORTE NO TRÂNSITO. Como o paciente estava letárgico e pouco ou nada responsivo, procurei obter informações com a senhora que estava ao lado:
– Bom dia. A senhora está acompanhando o paciente? É esposa? - perguntei, julgando pela idade aparentemente semelhante de ambos
– Sou sim, mas eu não convivo com ele. Nós nos separamos há 7 anos, quando ele me deixou por outra - respondeu conformada - Mas não tinha ninguém pra ficar com ele, ai foi o jeito eu ficar.
Confesso que, nesse momento, a minha atenção se desviou do paciente e ME VOLTEI PARA AQUELA SENHORA QUE PARECIA ESTAR SOFRENDO UMA DOR DIFERENTE, A DOR DA ALMA. Entre perguntas sobre o paciente e sobre a história da acompanhante, ela foi desabafando:
– Sabe doutor - como muitos, ela ainda não sabia que eu sou apenas estudante - ele me deixou com 7 filhos pra criar sozinha e se 'juntou' com uma mulher muito mais nova que só queria o dinheiro dele. Eu sofri muito, mas graças a Deus, hoje, meus filhos estão criados, casados e vivendo bem. E agora que o pai deles está nessa situação - falou apontando para o leito, com um olhar de piedade - eu tive que vir, já que a mulher dele nem apareceu. E Deus é tão justo, doutor, que ele foi um pai ruim pros filhos, que ele os abandonou, mas mesmo assim, os filhos deixaram seus trabalhos e suas esposas e vieram visitar. E até agora, a mulher ainda não veio. Ela só queria o dinheiro dele, doutor.
Após uma pausa breve para reflexão, notei que a folha do caderninho em que anoto as informações da anamnese estava quase em branco. E ela continuou:
– Não era pra eu estar aqui, doutor. Ele foi muito ruim para mim e para os meus filhos. Agora está ai, sem poder fazer nada e dependendo de mim pra tudo. Eu sou muito besta. Mas me sinto bem fazendo isso, afinal ele foi o homem que amei e é o pai dos meus filhos.
– A senhora é muito boa. Tem um grande coração e está ajudando a quem te fez mal. Isso é muito nobre. (falei, passando a mão sobre seu ombro).
Depois desse desabafo, voltei-me ao paciente e fiz alguns exames neurológicos de rotina. Eu agradeci, desejei coisas boas aos dois e sai.
O ensinamento que esse fato me proporcionou foi o do perdão. Uma mulher humilde abandonada teve a dignidade e o gesto nobre de perdoar e permanecer ao lado do marido diante de uma situação tão difícil como a que ele estava passando. A atitude desta senhora deve ser exemplo para a vida."

domingo, 23 de janeiro de 2011

Que droga!

Foto retirada de http://amagoprofundo.blogspot.com/
Que as drogas são um mal grave dessa nossa Era e que cada vez mais pessoas, de diversas classes, estão consumindo mais e mais... todos nós sabemos! Mas há outra coisa vem com essa verdade: NÃO É TODO PROFISSIONAL DA SAÚDE QUE SABE LIDAR COM ESSA REALIDADE.  Isso me referindo não só a médicos e estudantes, mas a psicólogos, assistentes sociais, agentes comunitários, etc, etc. Quando estamos estudando sobre Semiologia, nos ensinam a perguntar várias coisas relevantes, e "sobre o uso de drogas" é uma das perguntas que mais nos constrange, inicialmente. Porém, o tratamento não é só se informar sobre que drogas a pessoa usa, e sim é um a abordagem complexa e difícil, passível de erros humanos de desumanos... Assim, dou início a mais um relato que eu colhi e venho apresentar a vocês.
Quem me contou essa história tinha um familiar usuário de drogas, fazendo tratamento médico para "cura" do vício. A usuária estava internada e os familiares chegaram ao estabelecimento para conseguir informações (sobre a paciente, sobre como agir e um consolo de que tudo aquilo iria terminar algum dia...). Procuraram a assistente social que acompanhava o caso - e quase não foram atendidos, diga-se de passagem. Ao deparar a profissional, VIRAM QUE ELA JÁ VINHA ABORRECIDA, COMO SE ELES ESTIVESSEM ATRAPALHANDO ALGO QUE ELA ESTAVA FAZENDO! A assistente social olhou-os e sem um mínimo de respeito, ao saber do que se tratava, disse:
"Ah! É a usuária de drogas? Não, minha filha, não tem jeito não! Ela vai ficar internada e depois vai voltar a usar drogas do mesmo jeito!"
Como eu costumo dizer, não é preciso que sejamos santos para trabalhar na Área da Saúde, mas devemos ter no mínimo educação. Os familiares ficaram abismados. Além do constrangimento, foi-lhes tirada toda a esperança. São exemplos como esse que mostram como a educação em Saúde está deficitária.

Assim, como é preferível prevenir a remediar, vejam o vídeo que segue e pensem: digam 'não' às drogas!

video

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Quanto mais preciso aprender...?


Tive hoje mais uma "daquela" experiências que precisam ser ditas. É uma daquelas que dá um estalo e pensamos: o que que eu estou fazendo para mudar minha forma de agir? Estava em um serviço de saúde para ser atendida, sentada na sala de espera, lendo. De repente rompeu à porta mãe e avó com um pequeno "serzinho" nos braços. A mãe, desesperada, gritava pedindo "UM MÉDICO, PELO AMOR DE DEUS, MEU FILHO VAI MORRER!". Inicialmente o choque... olhei a criança nos braços do guarda (aturdido): o bebê estava roxinho e seus olhinhos não piscavam. Todos pediam calma e ela gritava por um médico. Ai aconteceu: eu, estudante de Medicina, impotente naquela situação. Não sabia o que fazer, como agir e muito menos como me impor. Aliás, essa é uma tarefa bem difícil para mim, já que quase ninguém (bem, estou sendo eufêmica...: ninguém!) me vê como adulta.
Isso me fez lembrar a vez em que eu estava viajando e, no ônibus, um rapaz desmaiou. Todos atordoados, senti seu pulso e disse que estava muito fraco. Ele havia bebido na noite anterior e estava em pé a bastante tempo. Meu diagnóstico: provável queda de pressão. Falei isso e sugeri que dessem-lhe sal, um pouquinho de sal de "chilito" em baixo da língua. Falei isso enquanto todos gritavam pedindo um bombom (um bombom para uma pessoa desmaiada?), então as amigas deles me olharam, riram e gritaram no ônibus: a enfermeira tá pedindo um "chilito"! Poxa! Sabe o que fizeram por fim? Uma amiga comprou água com gás, que ele não pode tomar porque estava desmaiado, colocaram um bombom na boca dele e ele continuou desmaiado até a cidade de destino. Ainda brincaram comigo mais algumas vezes enquanto eu verificava o pulso do rapaz esverdeado e empapado de suor frio.
Bem, voltando à criança inerte nos braços do porteiro...: não havia médico no serviço (é porque lá não é para ter mesmo, não é mais uma negligência do Estado, não!). Então uma enfermeira perguntou o que o bebê tinha, a avó disse que era hipotonia. Juro que me senti uma ignorante! O que se fazer nessa situação? Não sabia que doença era, nem o que fazer... só deduzi que o diafragma possivelmente estivesse parado, mas por quê?! Algumas pessoas vieram rezar com as mãos para o alto, a enfermeira massageava o peito do bebê e eu fiquei dividida entre ligar para o 192 ou correr no hospital que ficava a uma quadra dali - mas que provavelmente os médicos estariam ocupados com os paciente eletivos (lá não tem Emergência).
Quando o bebê voltou a respirar e mãe e avó levaram-na ao médico à uma quadra (que era para onde estavam indo antes do ocorrido), aqueles gritos de horror e desespero ainda ficaram ecoando nos meus ouvidos por todo o dia e eu percebi que TEMOS SEMPRE MUITO O QUE APRENDER E A HUMILDADE DEVE SEMPRE ACOMPANHAR AQUILO QUE NOSSOS CONHECIMENTOS IGNORAM...