sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Você já esteve em um hospital público?

HGF - Fonte: Google
Esse post foi produzido do ponto de vista de uma cidadã, de modo que quaisquer que se sentirem ofendidos têm livre direito de manifestar-se. Esse espaço também é seu!

Há alguns dias foi feita a seguinte enquete nesse blog: "Você já esteve em um hospital público?". Como de costume agradeço a quem participou e, a quem não participou, peço encarecidamente que participem da próxima vez! Inicialmente vamos aos resultados:

"Você já esteve em um hospital público?"

Como podem ver, dois pontos se destacaram:
²' O segundo mais votado foi em que alguém acompanhou e achou o atendimento bom. Certa vez, fui ao Hospital Y com minha mãe, hospital referência aqui em Fortaleza. Ela foi prontamente atendida e medicada, fizeram exames, aferiram a pressão e conversaram com ela. Ela foi ouvida por um médico e acompanhada por enfermeiras, que seguiram as instruções deste. Apesar de movimentado, o atendimento não foi prejudicado (aparentemente). Como eu estava só olhando e eu não era definitivamente quem estava sentindo dor, não tenho respaldo para garantir que tenha sido um excelente atendimento... mas pelo que eu pude ver, foi eficaz!
¹' O primeiro mais votado é o mais bradado pelos cidadãos não só de Fortaleza, mas do país como um todo. SÃO CONHECIDOS CASOS E MAIS CASOS DE MAU ATENDIMENTO, FALTA DE MATERIAL E DE RECURSOS HUMANOS. Uma colega de turma relatou uma atividade realizada por um(a) professor(a): ele(a) solicitou que os estudantes passassem vagarosamente nos corredores do Hospital X e pediu que reparassem no que normalmente a nossa pressa não nos permite. Ela disse que foi uma situação irreal, que era inacreditável como a gente passa todos os dias pelos mesmos locais e não via os pedaços das paredes caindo e os acompanhante pessimamente alocados. Aliás, os acompanhantes também passam dias e dias dormindo em cadeiras!

A primeira vez que eu entrei em um grande hospital, a sensação foi horrível. Entramos (minha amiga e eu) de jaleco, passando pela entrada de emergência. A visão era de um campo de guerra, com dezenas de pessoas deitadas nas macas, cadeiras, chão e similares. Ao passar, as pessoas nos olhavam, uns com raiva ("Esses médicos nem olham pra nossa cara! Não vão fazer nada, não?") e outros com um olhar de "súplica" ("Esses médicos nem olham pra nossa cara²! Façam alguma coisa, pelo amor de Deus!"). Como fazer algo se ainda estamos no início do curso? Eu me senti muito mal e certamente é uma cena que eu pretendo guardar para relembrar todos os dias que HÁ SEMPRE ALGUÉM COM NECESSIDADE DE ATENDIMENTO!






Esses dias eu ouvi uma frase que merece ser repassada e que foi de grande importância para que eu entendesse que (primeiro) não há apenas coisas ruins na nossa saúde e (segundo) nossa forma de agir vai definir se iremos ou não compactuar com o descaso que existe. Não vou citar quem falou porque (ainda) não pedi permissão a pessoa:
"A saúde (no Brasil) é uma ilha de eficiência em um mar de lama"
Asseguro, então, aos estudantes e profissionais da saúde que por ventura estejam lendo esse post: não é culpa só do profissional e somos/seremos forçados a trabalhar (muitas vezes) com recursos precários ou sem recursos mesmo. Mas precisamos dar o melhor que pudermos, afinal também fazemos a saúde do Brasil.

2 comentários:

  1. Estava curioso para visitar um hospital publico na época, (tinha uns 16 anos). Torci meu braço, como não tinha plano de saúde fui parar no IJF. Era uma sexta a noite mal sabia eu que era o começo de um fim de semana torturante porque cada vez mais aparecia ferido...Então, vi cada coisa, cada desumanidade. Foi uma loucura!!! Por um lado hj eu falo que é bom eu ter conhecido, passado por aquela experiencia e po certeza que eu dei mais valor minha vida...É isso..inté

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  2. Totalmente pertinente este assunto que você nos traz. E eu devo dizer que achei muito boa essa atitude do seu professor de 'convidar' vocês a 'perderem um pouco de tempo' (claro que não é perder, mas muitos podem considerar - e consideram sim! - perda de tempo) para realmente parar e ver, enxergar, aquilo que muitas vezes, (1) ou de fato não vemos, não prestamos atenção, (2) ou no início vemos, mas somos levados a pensar que 'é normal', que 'sempre foi assim', que 'não podemos fazer nada pra mudar', e acabamos banalizando as deficiências que o sistema tem. Eu tive 1 ano de estágio (dito) supervisionado em um Hospital Pronto-Socorro e de lá eu pude tirar algum aprendizado sim (apesar do que muitos falam de que 'não vale a pena ir pro ps porque se aprende tudo errado lá' ..). Pude ter muitas reflexões. Esse sentimento de entrar num hospital, de jaleco, e ver olhos cansados de tanta espera se voltando para você, seja com um ar de súplica, de 'por favor, me atenda!' ou de revolta, eu já senti também. E se eu não sentia essa sensação de 'o que eu posso fazer, se ainda estou no começo do meu curso?!' é porque desde o início eu sabia qual era o meu papel ali onde eu estava inserida, e das implicações de fazer qualquer procedimento médico sem supervisão, tanto pra mim, quanto pro próprio paciente (mesmo se eu soubesse o que fazer). Mas isso não me impedia de fazer o que estava ao meu alcance: conversar com os pacientes, e ouvi-los, e explicar que eu era apenas estudante, e que assim como eles esperava o médico; explicar que ele já ia chegar; procurar saber se o médico viria ou não, e a que horas chegaria; tentar encaminhá-los, dentro do hospital, pro local correto pro seu atendimento. Claro que eu não fiz isso na primeira vez, ou na segunda, e nem na terceira. Eu só aprendi com o tempo (e vencendo um pouco a vergonha, a timidez, e o medo de me comunicar com o paciente) que era isso que eu poderia fazer, e que era o que eu sempre deveria fazer, mesmo quando eu fosse médica mesmo. Aprendi que poucos profissionais (e menos ainda estudantes) se preocupavam com aquelas pessoas. Não pacientes, mas pessoas. E tudo o que elas queriam era não ser só jogadas ali, a espera de algum - qualquer um - atendimento. Elas querem ser tratadas com o respeito e dignidade que merecem, como pessoas, como seres humanos e, se esses não tiverem sido motivos suficientes pra convercer alguém, como clientes de um serviço pelo qual elas pagam, e caro.

    O que eu vejo que nos falta, a todos nós profissionais da saúde, é realmente enxergar que esses pacientes são pessoas, humanas, dignas de respeito, e que saem de suas casas e procuram um local que lhes é estranho, e nesse local buscam um ou mais estranhos que lhes possa cuidar, tirar a dor. E, quando isso não é possível, o mínimo que podemos dar é atenção, é informação, é respeito. Isso é o que deve ser sempre feito, na verdade. Como foi dito, sabe-se que faltam materiais e profissionais em muitos locais de atendimento. Mas isso não pode justificar o tratamento indigno que muitas vezes é dado ao paciente. Precisamos sim nos colocar no papel dessas pessoas, e tratá-las com todo o respeito e dignidade possíveis. Pelo menos é assim que eu penso.

    Não sei se consegui ser clara.
    E eu realmente gostei muito do texto do post.

    É o primeiro post que eu leio, mas desde já parabéns pelo blog. (:

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